domingo, 21 de janeiro de 2018

Graham Greene: um romancista inquieto e intemporal


O século XX viu nascer muitos romancistas e homens da palavra que ficaram na história pela sua escrita irrepreensível e pela imaginação que colocavam em cada obra. Poucos terão, ainda assim, tido uma vida tão rica em histórias dignas de romance como o autor britânico Graham Greene (1904-1991). 

Se por um lado Greene se tornou conhecido e largamente adorado pelos romances que o próprio definia como “entretenimentos”, são também as suas obras mais profundas e filosóficas, quase existencialistas, entre a relação com o catolicismo e a compreensão das relações humanas - e da posição do homem na sociedade, na vida, na sua época -, que o tornam ainda hoje um dos autores do século passado mais relevantes e intemporais. 

A obra de Greene, quase integralmente autobiográfica, é uma viagem pelas suas experiências e reflexões, pelos países que conheceu, pelas profissões que assumiu e por todas as viagens que teve oportunidade de fazer e que lhe ofereceram perspectivas diferentes sobre o mundo e o Homem.

(...)

Texto publicado no blog Má Educação - LER

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Habibi - Craig Thompson

"Habibi... Tu és mais do que uma história."
'Habibi', Craig Thompson

A melhor prenda deste Natal tinha de ser um livro - e daqueles para devorar em menos de uma semana, com muito amor. 'Habibi' é tudo o que podemos esperar de um romance em forma de novela gráfica: uma história de esperança, de amor e da constante busca de liberdade contada com muita emoção.

'Habibi' baseia-se numa fábula do Médio Oriente e conta a história de Dodola, uma menina de nove anos que é vendida pelos pais iliteratos para casar com um escrivão. Com ele aprende a ler e apaixona-se pela matemática, pela narrativa e pelas lendas que caracterizam a cultura árabe. Ao escapar a ser vendida como escrava, Dodola conhece Zam, um menino de três anos que ajuda a escapar e com quem passa a viver num barco abandonado no deserto. A sua relação vai evoluindo de mãe e filho para irmão e irmã, e mais tarde para um amor que ultrapassará todas as barreiras. Mas Dodola é forçada a prostituir-se para conseguir sobreviver e quando perde o rasto a Zam as suas vidas transformam-se radicalmente, nunca perdendo o que os une desde crianças.

Dodola e Zam começam por ter uma origem em comum: o desígnio da escravidão. Dodola tem até a marca de escreva, como uma eterna condenada a uma vida de escravidão, se liberdade, numa fuga constante e sempre na luta pela sobrevivência. Por isso - e pela precocidade do seu casamento, que a tornou adulta muito cedo - a prostituição surge-lhe como uma forma de conseguir sustentar-se e a Zam, por um lado, e por outro (mais tarde, com o Sultão) a escapar à prisão.

Dodola vende o corpo como se este não lhe pertencesse e os outros fazem dele uso, aproveitando-se desta necessidade de sobrevivência. Mesmo quando das suas entranhas nasce uma criança, não há qualquer ligação emocional a esta criação originada no seu corpo, contrariamente ao que acontece com o seus sentimento maternal em relação a Zam. Por seu lado, Zam tem vergonha do que Dodola fazia para os ajudar a sobreviver e vive na esperança de conseguir ser uma criatura puramente espiritual, sem desejo, sem o lado mais animalesco do homem, em compensação de todo o sofrimento de Dodola.


Esta busca pela pureza e pela inocência num mundo sujo, de contrastes entre o primeiro e o terceiro mundo, de luxúria e abuso por parte dos mais poderosos, é aqui realçada pelo autor como um espelho do estado do mundo na luta pelos recursos do planeta, uma luta muito contemporânea mas que sempre separou os mais ricos dos mais pobres, os poderosos dos escravos. Ao acompanhar o lado da pobreza e da escravidão, Craig Thompson mostra o barco abandonado onde o casal protagonista passa nove anos da sua infância e adolescência, a cabana do pescador que os ajuda perto do final, as barragens cuja água é levada directamente para a cidade poderosa e para longe das populações que dela necessitam.

A par da questão social, é também a religião e a origem comum do Cristianismo e do Islamismo (Isaac e Ismael, ambos filhos de Abraão) que preocupam o autor, com o objectivo de mostrar o lado mais puro e mágico da religião e da cultura árabes face aos extremismos. Mostra, através das histórias e do desenho, que o que une estas duas culturas religiosas é muito mais do que aquilo que as separa, ao ponto de às tantas já nos deixarmos confundir pelo que Dodola tem na cabeça sobre ambas.

Li algures que o desenho de Craig Thompson tem o brio cinematográfico de Will Eisner, e não podia estar mais de acordo. O traço intenso, a preto e branco, realista sem perder a magia da memória, das lendas e da ficção, fascina tanto nas imagens mais inocentes como nas mais cruéis. A distinção entre as memórias, as histórias bíblicas ou do Corão, o presente em que Dodola e Zam vivem e ainda as emoções mais fortes como o desejo e emoção, é também feita através do desenho, com molduras, vapores e sobretudo com uma grande mestria na intersecção destas várias narrativas.

Na sua base, 'Habibi' é, como o nome indica ("meu amor", ou "meu amor querido", em árabe), uma história de amor que evolui de um amor materno para um amor de irmãos, e mais tarde para um amor romântico, entre Zam e Dodola. Os números acompanham esta ligação forte, dos nove anos de separação entre eles aos nove anos que passaram juntos, aos nove meses que dura a gestação de uma criança no útero de uma mulher, aos nove quadrados dos quadrados mágicos que organizam a novela gráfica em nove capítulos.

Uma história emotiva de luta e esperança, com personagens únicas e apaixonantes, que nos fascina do início ao fim e não nos pode deixar indiferentes. Uma prenda recheada de amor, do melhor namorado do universo <3

Possession - A.S. Byatt

There are things that happen and leave no discernible trace, are not spoken or written of, though it would be very wrong to say that subsequent events go on indifferently, all the same, as though such things had never been.” 
'Possession', A.S. Byatt

Para quem procura um livro completo, recheado de emoção e de personagens inesquecíveis, 'Possession' é sem dúvida uma aposta ganha. Nas suas mais de 500 páginas leva-nos numa viagem ao passado, de descoberta, e sobretudo a uma história de amor em várias épocas que continuará a inspirar gerações futuras de leitores.

'Possession' acompanha dois investigadores literários e a sua descoberta de uma ligação (secreta até à data) entre dois poetas que são o objecto de estudo de cada um deles: Roland Mitchell e Maud Bailey, que estudam, respectivamente, os poetas Randolph Ash e Christabel LaMotte. Um romance que pode ser definido como um mistério intelectual (quase policial, por entre as linhas da literatura) e uma história de amor (que se espelha também no presente).

A.S. Byatt enche a sua escrita de génio e perspicácia na forma como nos leva do presente ao passado, mas também como transforma este presente de acordo com as descobertas do passado. Tanto Maud como Roland vão lendo os escritos deixados pelos poetas da sua adoração e vivendo as mesmas coisas que estes experienciaram em tempos, na busca pela verdade e pela história, e ao mesmo tempo procurando encontrar os seus próprios "eus" por entre tamanha dedicação às vidas dos outros.

“I cannot let you burn me up, nor can I resist you. No mere human can stand in a fire and not be consumed.”
À complexidade deste jogo de espelhos alia-se a densidade de camadas narrativas que 'Possession' engloba, num romance que nada tem de simples e linear. Dentro de um só livro há poesia, escritos académicos, contos, cartas e diários, para além da prosa do romance. São mais de 100 páginas diarísticas inventadas pela autora, como se às suas personagens pertencessem, e mais de 1700 linhas de poesia original, também da sua autoria, atribuída contudo aos poetas centrais da obra romanceada.

Há em todas estas formas de escrita e ao longo de toda a obra questões muito pertinentes e relativas à sociedade inglesa da época que são abordadas com muita inteligência por parte da autora, como a questão do feminismo, a questão o adultério (numa época e numa sociedade ainda mais antigas) e abusa a questão dos direitos de autor (e a quem pertencem após a sua morte). As histórias - do passado e do presente - são ainda acompanhadas por uma escrita muito emocional, que por vezes rasga o humorístico e o satírico, com um claro objectivo de crítica social e dos estereótipos do mundo académico britânico.

É, por tudo isto, uma verdadeira aventura deixarmo-nos levar por este romance denso, muito criativo e voraz, que nos faz querer saber sempre mais sobre a história destes dois poetas que ninguém sabia terem-se conhecido sequer, e em simultâneo precisamos de tempo e atenção para seguir tudo o que as personagens de Byatt nos querem contar, tudo o que a autora criou para as suas personagens. Tanto Ash e LaMotte como Maud e Roland são personagens e romances com espírito e muito bem modeladas, o que as torna emocionantes e idolatradas aos nossos olhos.

Daqueles romances cujo final (talvez um pouco piroso) nos deixa de lágrima ao canto do olho e cuja recordação estará muito para lá das páginas dobradas com as frases favoritas, mas sim espalhada por toda a história e todas as palavras das personagens que nos tornaram pessoas um pouco mais conscientes do mundo e da necessidade de aproveitar a liberdade da vida.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Comer/Beber - Filipe Melo e Juan Cavia

A relação entre o paladar e a memória é (muito bem) explorada nesta aventura em dois pequenos contos que voltou a juntar Filipe Melo e Juan Cavia em torno de uma obra de banda desenhada. 'Comer/Beber' explora duas épocas diferentes, duas texturas e duas histórias, uma real e outra ficcional, que juntas não podiam revelar melhor a importância deste sentido nas recordações que criamos e queremos preservar.

A primeira história, relativa ao 'Beber', é uma história de guerra, de trabalho e de esperança com uma garrafa de champanhe, guardada no cofre de um restaurante para uma ocasião especial, no centro da narrativa e do desenho. Um casal que começa do zero numa nova cidade, que finalmente começa a ter a vida que merecia, e que pela eventualidade da guerra pode perder tudo e ter de começar de novo - sobreviver à vida.

Na segunda história, relativa ao 'Comer', é um doce de infância que está no centro da criação. A tarte da mãe nunca se esquece e é sempre a melhor do mundo inteiro. É por ela que um homem atravessa o país a cumprir um último desejo e não podia ficar mais arrasado com as descobertas que faz e a forma como se deixa emocionar pela história de dois desconhecidos.

O Filipe Melo, que é uma pessoa super fixe, encontra as histórias mais interessantes para serem contadas em novela gráfica. As suas palavras são directas ao assunto e emocionais ao mesmo tempo, e muito bem consolidadas com o desenho de Juan Cavia, que tem uma capacidade única de expressar os sentimentos das personagens através de rostos contorcidos de dor, de pequenas expressões de felicidade. 

Há uma grande proximidade entre as suas formas de ver o mundo e contar as histórias, o que resulta num casamento perfeito e num pequeno mas grande livro que vale a pena ler e reler as vezes que se quiser 😊

Um Crime no Expresso do Oriente/O mistério de Listerdale - Agatha Christie

"- Entretanto, seria um autêntico argumento para um romance, meu amigo. Cerca-nos gente de todas as classes e nacionalidades. Durante três dias, essas pessoas, estranhas umas às outras, estarão reunidas, comendo e dormindo sob o mesmo tecto, sem se poderem separar. No fim esse prazo, cada qual tomará o seu caminho e talvez nunca mais se tornem a ver."
'Um Crime no Expresso do Oriente', Agatha Christie

Apesar da semelhança da senda policial, Agatha Christie continua a surpreender-me a cada nova leitura. Há na sua escrita mistério, inteligência e uma enorme capacidade de nos envolver nas vidas das personagens. Se os contos d'O Mistério de Listerdale' mostram a sua versatilidade nas histórias criadas, 'Um Crime no Expresso do Oriente' é a sua consolidação como a grande autora de policiais do século XX - e a de Poirot como o detective mais perspicaz da história da ficção.

Na primeira obra, que é talvez a mais famosa de todas as escritas por Agatha Christie, dá-se, como o título indica, 'Um Crime no Expresso do Oriente', que só pode ter sido um dos passageiros ou tripulantes a cometer. Mas ninguém parece ter sido o verdadeiro assassino, e ao mesmo tempo todos parecem ter algo a incriminá-los. Claro que Poirot consegue olhar para lá do que está à vista e desvendar um mistério que nos enche a todos de surpresa quando o descobrimos, e que é sem dúvida muito original na obra de Christie.

Na segunda obra, 'O Mistério de Listerdale' é apenas um dos primeiros contos da autoria revelados nesta compilação de pequenas histórias que mostram a sua genialidade enquanto criadora de personagens (tanto as vítimas como os assassinos, passando por aqueles que procuram desvendar a verdade) e de enredos policiais fascinantes. Destaque, por exemplo, para 'A Estranha Casa de Campo', a história da rapariga que descobre que não conhece o homem com quem casou, com um final inesperado mas que não podia fazer mais sentido no rumo que a história acaba por tomar.

Há nestas histórias, tal como em 'Um Crime no Expresso do Oriente', uma vitória da lógica sobre os crimes ou mistérios escondidos, sobretudo em Poirot, que é também uma vitória da verdade, da bondade, da justiça. Tudo isto se consegue sem falsos moralismos, e sim com uma grande inteligência que culmina na resolução dos mistérios. Há sempre esperança na descoberta, há sempre perspicácia e vontade de saber mais. E essa é a maior lição que Agatha Christie nos pode dar para a vida real, através de todas estas vidas e mortes inventadas.

O que passava na sua cabeça ao escrever estas histórias, ninguém saberá. Certo é que Agatha Christie continua a ser a mente mais genial no que respeita à escrita policial - e cada novo livro leva-nos numa nova aventura pelos seus crimes e mistérios inesquecíveis.

domingo, 31 de dezembro de 2017

2017 em livros


8 027 páginas lidas em 37 livros completados, dos quais mais de 10 foram leituras de banda desenhada / novela gráfica e mais de 20 foram livros de ficção que me encheram totalmente as medidas.

Feliz com esta conquista de número de obras lidas e, sobretudo, com a qualidade das leituras, que mais uma vez me fez sentir concretizada.

Aqui O Meu Ano em Livros (cortesia do Goodreads).

Em 2018 adivinham-se muitas outras novas leituras cheias de emoção!

Bom ano 😊📖✏️

domingo, 24 de dezembro de 2017

A Balada do Mar Salgado - Hugo Pratt

Corto Maltese surge pela primeira vez nesta novela gráfica de extensa pesquisa histórica e muito criativa e realista na construção das personagens. Uma verdadeira balada, de contornos românticos, em tom emocional, que nos transporta para o mundo dos piratas, das ilhas secretas e das aventuras inesquecíveis.

'A Balada do Mar Salgado' vê aparecer este homem habitualmente vestido de marinheiro, de brinco na orelha esquerda, amarrado a uma jangada no meio do mar, meio nu, onde é encontrado pelo seu rival (igualmente pirata a mando d'o Monge) Rasputine. Este raptara já no seu catamaran dois jovens europeus com o objectivo de chantagem os seus familiares ricos, e dirigia-se para a Escondida, ilha comandada pelo dono dos mares do Pacífico Sul, que chamam de o Monge. As aventuras sucedem-se nesta ilha difícil de encontrar, nestes primeiros tempos de I Guerra Mundial: há canibais, navios de guerra alemães, tubarões, pirataria, amizades inesperadas e uma rapariga determinada, Pandora, que vai aproximar-se um pouco mais do coração de Corto Maltese.

Hugo Pratt capta na perfeição a cultura e a tradição dos povos do Pacífico - por exemplo na maravilhosa cena em que o tubarão mostra o caminho certo ao navegador Maori - e ao mesmo tempo inova na forma como relata as relações humanas entre povos tão diferentes - tanto com os autóctones como com os alemães. Para além desta capacidade de escrita e de contar histórias aventurescas, é também no desenho e na forma como contrói personagens tão memoráveis que Pratt se destaca como um génio da banda desenhada.
Há nesta balada muito mais que a história simples que nela parece viver. O poder do Monge, a insubordinação de Rasputine, a determinação de Cain, a sensatez de Pandora e a aura de mistério em torno de Corto Maltese tornam esta novela gráfica a preto e branco, de traço coerente e realista, uma verdadeira história de personagens, mais do que da intriga pirata que se desenrola. 

A bondade de Corto Maltese, que apesar da sua veia de pirata quer é a paz no mundo e poder viver a sua vida ao sabor do vento, contrasta radicalmente com o seu alter-ego Rasputine, que procura a todo o custo assumir o domínio da Escondida e do seu tesouro pirata. O estigma da pirataria, sobretudo para os dois jovens de famílias educadas e endinheiradas, faz com que inicialmente se virem também contra Corto Maltese, e é muito interessante assistir à viragem na forma como passam a encará-lo ao entender as suas boas intenções - até porque o destino de um homem é ele que o desenha, como fez  Corto.

Corto Maltese parte, como sempre, para novas aventuras oceano fora, por onde o mar salgado o levar, e nós ficamos aqui à espera de novas leituras. Esta é de facto uma leitura marginal, de um livro que demorei mais tempo a embrulhar para dar ao meu namorado no Natal porque quis lê-lo primeiro. E li-o de uma assentada, tentando absorver intensamente as imagens e as personagens desta obra de arte que certamente gostarei de reler muitas e muitas vezes e que me acompanhará para sempre.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Bartleby, o Escrivão - Herman Melville

"Preferia não o fazer."
'Bartleby, o Escrivão', Herman Melville

A minha curiosidade em conhecer Bartleby vem desde os primeiros anos de faculdade, quando muitos dos professores falavam desta pequena obra como de um grande livro que se reinventa a cada época e em cada contexto em que é estudado. Não é fácil de engolir, mas ao afastarmo-nos da simplicidade da escrita e da estranheza da história, sentimos o verdadeiro valor deste conto de Melville.

Um advogado nova-iorquino emprega um novo escrivão no seu escritório, Bartleby, que surge como um homem de ar respeitável e reservado. Inicialmente prestável, o escrivão começa aos poucos a recusar todo o trabalho que lhe pedem com um "Preferia não o fazer", nem muito assertivo nem totalmente passivo, inegavelmente estranho e desamparado. O advogado tenta ajudá-lo, tem pena da sua vida solitária, e no entanto Bartleby leva cada vez mais ao extremo a recusa de tudo e de todos.

De farsa passa rapidamente a tragédia, mostrando esta viragem na vida de Bartleby, na sua forma de ver o mundo e tomar decisões, que eventualmente o vão levar a um fim extremo e inexplicável. Descobre-se afinal que Bartleby entende melhor o ser humano do que a maioria de nós: absorve em si todas as vontades do mundo, recusa por todos os que continuam a seguir as suas vidas correctas até ao fim, sem nenhum desvio no caminho. Reflecte toda a humanidade na sua melancolia, na persistência e na radicalidade da sua determinação.

Se superficialmente a história não parece entrar nesta dimensão social, se a analisarmos mais a fundo entendemos que as palavras de Melville, as personagens que descreve e a forma como se aproxima da tragédia de Bartleby é bem mais do que a simples história de um escrivão em Wall Street. É a história de muitos outros que, como ele, se envolveram na vida agitada, impessoal e massificada de Nova Iorque.

'Bartleby, o Escrivão: Uma História de Wall Street' é uma reflexão interessante sobre a condição humana e ao mesmo tempo uma história que nos inquieta do início ao fim sem o fazer explicitamente, o que a torna ainda mais estranha e bem construída.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Silêncio (#TLS Series) - vários autores

O melhor da banda desenhada nacional num só livro. ‘Silêncio’ é o segundo volume de uma série de histórias criadas pelos artistas do The Lisbon Studio em torno de um tema, neste caso o silêncio. Bandas desenhadas silenciosas, outras bastante ruidosas, outras ainda o silêncio é o que se busca no final. 

Entre as várias histórias que compõem esta colectânea, destaque para as quatro que mais me fizeram sentir o poder do silêncio: ‘Deslumbre’, de Bárbara Lopes; ‘Monte Morte’, de Jorge Coelho e André Oliveira; ‘Tempo’, de Paula Bivar de Sousa; e ‘Era uma vez’, de Pedro Ribeiro Ferreira.

São histórias em que o silêncio diz tudo; em que nem sempre precisamos de dizer as coisas para elas se fazerem sentir, para existirem e para nos afectarem. Para nos apercebermos delas. O silêncio tem esta capacidade ao mesmo tempo redentora (na necessidade de estarmos sós), conflituosa (no que cria dentro de nós) e criadora (no sentido de dar asas à imaginação).

‘Deslumbre’ é a prova de como o silêncio afecta as relações humanas e as prejudica para sempre. Quando um dos parceiros desaparece, sem deixar rasto, deixando tudo em silêncio, talvez não haja palavras suficientes para conseguirem remendar a dor de todas as que não foram ditas no momento certo.

Num extremo oposto está ‘Tempo’, que capta um silêncio ainda mais emocional e doloroso: o silêncio da dor, da perda, das palavras que gostávamos de ter dito e não tivemos tempo - nem nunca mais teremos.

O impacto visual de ‘Monte Morte’, a única história desta colectânea que tem cor, é absolutamente incrível. Uma história de família, de maldições, de crimes que parecem não ter fim e onde o silêncio tem sempre um papel fundamental. E para além disso o Jorge é um fixe, e desenha muito bem, e esta história é mesmo das mais marcantes de todo o livro.

Já ‘Era uma vez’ é a história que mais nos faz viajar no silêncio. O pânico da página em branco é, por vezes, por si só, motivo para criarmos histórias em torno dessa mesma situação. E é o que este artista nos dá nesta história: uma conversa fantasiada que nos faz sonhar, e que acontece apenas na sua cabeça.

Silêncios que falam bem alto para quem os quiser ouvir, é o que se sente ao ler estas histórias e ao ver as ilustrações maravilhosas destes artistas do The Lisbon Studio. Que continuem a dar-nos tantas visões diferentes, criativas e únicas sobre temas com os quais tanto nos identificamos. Uma bela compra da Amadora BD!

Breakfast at Tiffany's Revisited


Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

A notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

Texto completo no blog Delito de Opinião, onde fui convidada a colaborar com um artigo na secção "Convidados" 😊

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Casa - Paco Roca

Passamos a nossa vida entre casas, desde aquela em que vivemos o primeiros anos, passando pela nossa primeira casa sozinhos, ou pela que partilhamos com amigos, e depois para a casa onde queremos construir família e nela ficar até ao fm dos nossos dias. Enquanto passamos por elas, elas não passam simplesmente por nós: é nelas que construímos as memórias e onde guardamos a nossa vida nas pequenas gavetas do coração.

Uma casa é assim um reflexo de quem nela vive, que a enche de recordações silenciosas ao longo de muitos anos de vida. Quando o seu ocupante desaparece para sempre, tudo o que fica na casa se mantém intacto - menos tudo o que, com o tempo, tende a deteriorar-se se não for bem cuidado. Esta 'A Casa' fica um ano inteiro à espera de voltar a receber visitas após a morte do seu dono. É nesta altura que os seus três filhos a visitam e nela reencontram e enfrentam as suas memórias, a dor da perda e a inviabilidade de se afastarem da infância.

Paco Roca capta na perfeição esta vida e morte das casas, como a das pessoas, que nelas vai deixando restos de si. É uma história muito pessoal que o autor nos revela nesta novela gráfica recheada de imagens bonitas e melancólicas, com um traço muito simples e onde as palavras quase nunca são necessárias para dar voz à história.

Os três irmãos que visitam 'A Casa' fazem-no de forma muito própria, cada um no seu momento, cada um numa diferente experiência individual do que é regressar a uma casa onde já foram muito felizes e onde as recordações parecem regressar em catadupa à sua memória. Os jantares que o pai organizava, as árvores de que cuidava, as histórias de família que contava. Tudo está contido naquele espaço-tempo do qual não se querem separar, ainda que o que os tenha juntado ali tenha sido mais a venda daquela casa de infância do que a homenagem ao pai um ano após a sua morte.

O desfecho é inevitável e um reflexo do dia-a-dia actual, onde queremos ser capazes de muita coisa mas acabamos por nos perder no meio de tantas memórias que não podemos manter, no meio de tanta correria que nos ajuda a ultrapassar demasiado rapidamente as coisas importantes e a que podíamos dar um pouco mais de valor, sejam sofridas ou amadas, ou ambas. Deixar para trás os anos vividos numa casa que tornámos nossa é difícil e triste, sobretudo quando gostávamos de não ter de fazê-lo.

Um relato emotivo, com o qual todos nos conseguimos identificar, verdadeiramente pessoal, bonito e sentido, que se espelha numa maravilhosa novela gráfica de redenção e homenagem.



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A Língua de Fora - Juva Batella

"Enquanto isto, na cela n.º 013, toda a Turma da Língua de Fora e mais o Eufemismo, os Versos Livres e a Língua bocejavam. Dormiram um sono agitado, sonharam todos o mesmo sonho: um lugar inundado de claridade, talvez uma cidade onde só havia felicidade, afinidade, pouca autoridade, nenhuma arbitrariedade, muita dignidade e amabilidade, os corações cheios de bondade, uma vida de igualdade, relações de lealdade, muita disponibilidade para a descoberta da enormidade de cada espiritualidade, da musicalidade de cada sensibilidade, da verdade de cada subjectividade. Não eram sonhos iguais, porque cada um sonhou o seu sonho - mas todos rimavam com liberdade."
'A Língua de Fora', Juva Batella

Quem diria que a Língua Portuguesa daria o mote para um romance inteligente e original sobre as suas origens, os seus principais intervenientes e todas as revoluções que se vão dando na evolução da língua? Juva Batella pega na poesia da língua portuguesa e na sua complexidade para criar uma obra onde 'A Língua de Fora' é sinónimo de liberdade, união e amor - num mundo em que precisamos tanto de reconquistar estes valores.

Na "janela mais alta do andar mais alto da mais alta torre da majestosa mansão" vive a Língua Portuguesa, protegida pelo Purismo e o Preciosismo, desde a morte do seu pai, Latino Vulgar, rei do Reino das Palavras Livres. Mas só quando o Tom Coloquial e a restante Turma da Língua de Fora a convencem a descer da torre é que a princesa descobre que o seu reino, agora Reino das Palavras Contadas, é regido pelo Verbo e os seus ajudantes Verborrágicos, uma ditadura da palavra que precisa de ser reconquistada para o lado do bem. O grupo rebela-se contra o Verbo numa guerra pela liberdade e pelo futuro da língua, onde no meio de tudo isto uma paixão nascerá também.

O que mais me fascina neste 'A Língua de Fora' é a criatividade com que é desenhada a história da Língua Portuguesa e a poesia que Juva Batella imprime em cada frase ou diálogo - acredito mesmo que a sua criatividade dialógica o tornaria uma óptima peça de teatro para todas as idades! As personagens, dentro do universo da língua e da palavra falada, são muito ricas dentro da sua designação: o Tom Coloquial trata todos por "tu", o Eufemismo procura sempre relativizar tudo, o Pleonasmo passa a vida a reforçar as suas ideias, o Mal-Entendido nunca percebe nada do que se está a passar. E no entanto, apesar de todas as suas diferenças, todos lutam pela mesma liberdade.

"E começaram os seis a discutir, menos o Tom Coloquial, que, deixando-se cair na relva, de frente para a Língua, arregalou os olhos e abriu a boca, completamente encantado, absolutamente maravilhoso, integralmente conquistado pelo som daquela voz a rir, e depois a fitá-lo a sorrir. Ele sorriu de volta, e sentiu que não pararia de olhar para ela e para aquele seu corpo por nada daquele mundo ou de outro qualquer. Ele ficaria ali parado, para sempre, a corresponder àquele olhar. Ele faria qualquer coisa que ela lhe pedisse."
Durante toda esta revolução da Turma, que deita a língua de fora à tirania do Verbo, o romance que se desenrola entre a Língua Portuguesa e o Tom Coloquial (dei por mim a pensá-lo e lê-lo como "tóm", mais do que como "tôm"), duas personagens tão diferentes, torna esta experiência narrativa uma busca pelo caminho que os una na língua do futuro - literalmente falando, no equilíbrio necessário entre a formalidade e a informalidade da língua e da sua necessidade de adaptação aos diferentes contextos de utilização das palavras.

É uma viagem pelos aspectos mais conservadores e revolucionários da língua, ao mesmo tempo que é um romance ficcional simples e eficaz sobre príncipes e princesas, sobre heróis, sobre os bons e os maus. Deixamo-nos levar de forma interessada e maravilhada (como diria o Adjectivo) pela história de libertação de um regime repressivo, onde a cada dia os habitantes do reino têm de recolher a sua dose contada de palavras para utilizarem no dia-a-dia e serem assim controlados, censurados e calados pelo rei tirano.

Há nesta simplicidade de conto de fadas uma camada mais profunda e complexa de descoberta da língua, da existência dos idiomas, da coloquialidade da linguagem, que tornam a leitura mais divertida e complexa - e uma excelente adaptação do português brasileiro para o português de Portugal. Fico feliz por ter sido a minha compra de visita à Livraria Lello, no Porto, que por si só já transporta tanta magia e valoriza tanto a língua e a leitura em língua portuguesa.

Com esta fábula romanceada de Juva Batella aprendemos e recordamos melhor esta língua tão complexa e ao mesmo tempo tão fascinante, cuja gramática tantas dores de cabeça (literais e metafóricas) nos dá nos tempos de escola, e sobre a qual temos uma leitura tão mais interessante enquanto adultos e mais experientes na arte da palavra. Sobretudo se gostarmos tanto de a ler e escrever.