A Noiva do Tradutor - João Reis

"O navio zarpou e ela não se despediu, não disse nada, nem me fez um gesto, ter-se-á esquecido, é natural, perfeitamente normal que assim seja, não se faz uma viagem destas todos os dias, é difícil embarcar nestas condições, com este tempo, sim, não tem nada de estranho, como poderia ela erguer a mão e acenar-me se o vento era tal que dificilmente segurava o guarda-chuva ao subir seguida por tantos passageiros apressados e pouco interessados em despedidas?"
'A Noiva da Tradutor', João Reis

O primeiro romance de João Reis é uma pequena grande pérola literária. Rápida, frenética e crítica, a história deste tradutor e da sua noiva que partiu sem se despedir ou deixar nele a esperança de regressar transforma-se numa viagem alucinante pelo seu pensamento, pelas emoções que o atormentam. À medida que vai enlouquecendo e caminhando para um fim inesperadamente esperado, chega também o leitor ao fim do livro com uma sensação de inexplicável inconformidade.

O jovem tradutor apresenta-se nesta obra na primeira pessoa, sem nome pelo qual o possamos caracterizar, apenas uma dor imensa de ter acabado de ver a sua noiva, Helena, partir num navio rumo a um destino distante. E ele fica em terra, num lugar que pode ou não ser Lisboa, e perde o seu chapéu humilde e muito característico numa viagem de eléctrico que a todos os níveis lhe parece estranha. Conhecemos a sua senhoria, os homens que lhe vão dando trabalho e não o valorizam, o seu dia-a-dia sem um propósito definido com a partida de Helena. Apenas nela continua a ver um propósito, e por isso quer comprar a casa amarela e voltar em força ao trabalho para a fazer voltar para ele. Mas se ela nem se despediu.
"A velha sorri-me, a palavra não me sai da cabeça, kartofler, maldição para tudo isto, porque é que não penso em Helena agora, neste instante, e sou perturbado por tanta estupidez, coisas inúteis, é de bradar aos céus, um suplício, nasci na época errada ou poderia ter sido uma figura da mitologia grega, um deus caído em desgraça, o salvador da humanidade condenado a eternamente sofrer diante do absurdo, uma gigantesca pedra que rolo, carrego às costas, tudo em mim quer explodir, tremo de frio, a água escorreu-me pelo pescoço, o chapéu no eléctrico, sabe-se lá onde estará agora, terei de averiguar isso."
São 48 horas da sua vida em cem páginas de um livro e que na nossa vida se passam em apenas algumas horas de leitura, mas com um grande potencial de ficarem para sempre. Talvez não pela diferenciação da história, antes pela forma como nos é demonstrada: através do fluxo desordenado e alucinante de pensamentos que passam pela cabeça do protagonista. É um jovem com a vida toda pela frente mas atormentado por tantas dúvidas, tantas dores interiores, tantas inconformidades com as pessoas e a sociedade em que vive, que o seu delírio aumenta gradualmente num crescendo dramático culminante num clímax aguardado, e ainda assim surpreendentemente original. 

É quase uma viagem existencialista pelas suas possibilidades de futuro, em busca de uma velha nova razão para existir. Algo que todos sentimos pelo menos uma vez na vida, e que pode ou não levar a um estado delirante de loucura como o que este jovem tradutor, profissão partilhada pelo autor, experimenta ao longo de toda a obra. Vai perdendo gradualmente a razão e a capacidade de agir correctamente, como o protagonista anónimo de 'Amok' (Stefan Zweig) ou Raskólnikov em 'Crime e Castigo (Dostoiévski), onde João Reis parece inspirar-se pelo menos na criação da personagem principal.

Um pequeno livro de esperanças e sonhos impossíveis, de temores, de impulsos. Parte do seu delírio explica-se até pelo insulto que atira a todos os mesquinhos com quem se cruza ao longo do romance, seja a sua senhoria ou o senhor Szarowski: "kartofler", em dinamarquês, quer apenas dizer "batatas". Um inesquecível primeiro romance que, ainda que bastante diferente do que lhe começou a dar nome literário, 'A Avó e a Neve Russa', mostra já a sua capacidade de quebrar as regras da literatura e dar-nos a conhecer histórias pessoais, intensas e numa escrita única e invulgar.

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