sábado, 17 de outubro de 2015

O Falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello


"Mas ela tinha um coração e não podia amar; aquela sombra tinha dinheiro e qualquer lho podia roubar; tinha uma cabeça, mas para pensar e compreender que era a cabeça de uma sombra, e não a sombra de uma cabeça. Absolutamente assim!"

'O Falecido Mattia Pascal', Luigi Pirandello

Foi daqueles livros totalmente desconhecidos que encontramos por acaso numa livraria, com um desconto apelativo, e não conseguimos resistir a comprar. Sabem? Apaixonei-me pela sinopse, pelo título interessante e a capa peculiar, e tive de o ler logo de seguida. 'O Falecido Mattia Pascal' talvez não me tenha apaixonado tanto como este momento inicial da nossa relação, mas não deixa de ser um excelente exemplar de literatura!

Mattia Pascal é arquivista, casa com Romilda e vive a desesperar com a sogra que lhe faz a vida negra. É claramente um homem a precisar de mudar de vida - e uma noite de sorte ao jogo em Monte Carlo dá-lhe exactamente essa possibilidade. No regresso para casa, rico, apercebe-se de que o dão como morto na sua terra, pelo que vagueia por outras paragens italianas até encontrar um novo lar numa pensão em Roma. No entanto, ao apaixonar-se e sentir algumas complicações na pele, nem tudo vai correr bem para o falecido Mattia Pascal.



A questão da identidade é muito bem explorada por Pirandello - e, sem dúvida, o mais interessante a levar deste romance pouco convencional. Mattia Pascal, ao passar a ser "falecido", deixa de ser o anterior Mattia - muda até de nome, passando a ser Adriano Meis. Não deixa de o ser, contudo, no seu íntimo. E isto gera uma grande confusão dentro da sua alma: deixa de ter uma identidade, uma personalidade. Torna-se alguém que não se conhece (e que não se pode deixar conhecer, nem apaixonar!).

Apesar de rico, o falecido Mattia Pascal não é já ninguém. O dinheiro dá-lhe apenas o conforto de poder viver onde quiser, passando despercebido a todo o mundo. Mas, como o cliché da ficção nos ensina na maioria das vezes, não traz felicidade. Ao não saber quem é, apercebe-se de que o anonimato não lhe permite ter uma vida normal, com uma mulher que ame, rodeado de pessoas de quem gosta.

É então que Mattia Pascal entende que... tem de morrer uma segunda vez, e talvez regressar às origens para se reencontrar consigo mesmo. A premissa é genial, neste sentido, deixando-nos às voltas na história, como ao próprio Mattia que já não se conhece.

"Aconteceu-me várias vezes, ao acordar no coração da noite (a noite, nestes casos, não prova que tenha muito coração), sentir, nas trevas e no silêncio, um estranho espanto, uma estranha perturbação, ao recordar-me de qualquer coisa que fiz à luz do dia sem dar conta disso. Quantas deliberações, quantos projectos, quantos expedientes concebidos de noite se nos revelam vãos, se desmoronam e se esfumam, à luz do dia! Da mesma maneira que o dia é uma coisa e outra coisa a noite, assim também nós somos talvez uma coisa de dia, outra de noite: coisas de pouco valor, tanto de noite como de dia."

Ao mesmo tempo, perdemo-nos demasiado frequentemente nas histórias que ocorrem na pensão em Roma. Casos de roubo, de dotes, de tentativas de engano... tudo isto rodeia Mattia enquanto o mundo, quase sem se aperceber, conspira inconscientemente para desvendar o seu segredo. Apesar de o seguirmos sempre com a maior atenção - e o mais suspense - , tenho pena que nem sempre o consigamos fazer com o maior interesse.

A escrita é interessante, recheada de pequenos pormenores, de humor negro e trocadilhos que não nos deixam indiferentes. Está cheia de rodeios, enche a história de grandes voltas para chegar onde pretende. E envolve-nos nas questões identitárias que tanto caracterizam a obra.

Das compras quase que por impulso, esta é sem dúvida uma da qual não me arrependo. Reconheço-a como sendo uma obra muito relevante dentro do género, daquelas que devemos sempre ler para ter conhecimento da forma como contam histórias tão interessantes. E ficou o bichinho de conhecer melhor Pirandello!

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