sexta-feira, 10 de junho de 2016

Os Cadernos de Pickwick - Charles Dickens

"O sol, pontual servidor de todos os trabalhos, acabava de nascer e começava a alumiar a manhã do dia treze de Maio de mil e oitocentos e vinte e sete, quando Samuel Pickwick se ergueu, tal outro sol, dos seus sonhos, abriu de par em par a janela do quarto e espreitou o mundo em baixo."
'Os Cadernos de Pickwick', Charles Dickens

Prendas de anos que não podiam ser mais bem escolhidas. Um verdadeiro presente pickwickiano - recheado de aventuras sem sair do sofá, mas que nos enchem o coração e nos fazem rir e chorar por mais a cada fascículo novo. Charles Dickens conquistou-me com estes pequenos cadernos humorísticos, o Sr. Pickwick e as viagens com os seus amigos.

Pickwick e os pupilos e amigos Tupman, Snodgrass e Winkle, membros do clube ao qual o primeiro dá nome, passam os dias a viajar pelo interior de Inglaterra em busca de conhecer melhor não só os locais, mas também as pessoas que neles habitam. Fazem assim descobertas científicas e do comportamento humano, conhecendo personagens muito características, vivendo situações muitas vezes ridículas e tornando as viagens, mais que 'profissionais', muito pessoais.

"Poucos momentos haverá na vida de um homem que se possam comparar, na experiência do sofrimento ridículo e de uma proporcional falta de compaixão e caridade, à corrida atrás do próprio chapéu."

Estas aventuras são relatadas com muito humor, desde o Sr. Pickwick atrás do seu chapéu às paixões dos seus amigos por donzelas que vão conhecendo; do episódio que os aproxima a todos da prisão às trapalhices do pai do Sr. Weller; do Sr. Jingle que não consegue construir uma frase sem reticências e com mais de 5 palavras seguidas... aos partidos distintos de Eatanswill.

Quando um livro e um autor têm, sozinhos - com os devidos créditos aos leitores que os celebrizam -, a capacidade de tornar as acções das suas personagens características, ao ponto de serem tomadas como referência sempre que alguém tem as mesmas acções, sabemos que estamos perante uma das grandes obras do século XIX! É o que acontece com Samuel Weller e a sua peculiar forma de se expressar: sempre utilizando comparações engraçadas e metáforas no seu discurso.

Apesar de muito descritivos, estes 'Os Cadernos de Pickwick' são também bastante dialógicos: há sempre acção, aventuras a acontecer, discursos elegantes a ser ditos, expressões curiosas a ser utilizadas. E tudo isto torna a leitura, apesar de densa e longa (são mais de 900 páginas!!), muito interessante e rápida, a par dos belos desenhos que vão ilustrando as aventuras vividas pela trupe.

"-Não acham extraordinária a impressão de que é nosso destino entrar em casa de toda a gente para os meter em qualquer espécie de sarilho?"

Se ao longo dos fascículos - sim, que isto não foi escrito como uma obra só, mas sim como pequenas histórias em fascículos - o Sr. Pickwick é frequentemente caricaturado nos relatos das viagens, pela forma inevitável e inesperada como é apanhado em situações estranhas e duvidosas, é ao mesmo tempo o mais perspicaz, sensível, compreensivo, humilde e sensato de todos eles.

À sua volta as personagens exageram, representam classes sociais, mostram características do local e das pessoas que conhecem, são conservadoras ou desrespeitam-se umas às outras. E o Sr. Pickwick é sempre a pessoa que mete ordem na casa, que explica como as coisas devem ser, o que está certo e o que está errado, elevando a sua voz e mostrando aos outros o que de melhor se encontra nos seus corações.

As personagens não mudam necessariamente ao longo da obra, antes descobrimos lados seus que desconhecíamos inicialmente. E vamo-nos aproximando delas, cada vez mais, à medida que se nos vão mostrando boas, apaixonadas e "pickwickianas", no que de sarilhos e humildade a expressão encerra.

Tanto Sam como Pickwick são absolutas revelações nesta obra e sem dúvida as personagens que me fazem querer voltar a estas páginas. Recomendarei a todas as pessoas, porque acredito que há um pouco de cada uma destas personagens em nós, e isso torna a leitura muito mais interessante, rica e memorável - e a descrição da sua leitura uma tarefa quase impossível :)

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