domingo, 6 de março de 2016

Brideshead Revisited - Evelyn Waugh

"He did not fail in love, but he lost his joy of it, for I was no longer part of his solitude. As my intimacy with his family grew, I became part of the world which he sought to escape; I became one of the bonds which held him."
'Brideshead Revisited', Evelyn Waugh

Ver capas também pode ser ver corações. É o caso desta maravilhosa edição de 'Brideshead Revisited', cuja história já conhecia mas que ainda não tinha tido o prazer de ler. Obrigada à Fyodor Books por me ter feito cruzar com ela e conhecer mais de perto a história de Charles Ryder e da sua ligação perpétua a Brideshead.

Charles Ryder e a sua companhia militar são destacados para um novo local, a Marchmain House - uma casa nada desconhecida para Charles. As recordações assombram-no quando chega a Brideshead, desde a primeira vez que lá entrou, com o novo amigo Sebastian Flyte, ao dia em que a pisou pela última vez. Através das memórias da sua vida, tomamos contacto com a sociedade dos anos 20, a vida universitária boémia de Oxford, o aproximar da guerra, o catolicismo e conservadorismo aristocráticos e a luta de um indivíduo para encontrar o seu lugar no meio desta vida a que parece não pertencer.

"'Oh, my darling, why is it that love makes me hate the world? It's supposed to have quite the opposite effect. I feel as though all mankind and God, too, were in a conspiracy against us.
'They are, they are.'
'But we've got our happiness in spite of them; here and now, we've taken possession of it. They can't hurt us, can they?'
'Not tonight; not now.'
"

Nestes anos 40, em que revisita o passado eternamente ligado a Brideshead, Charles assume-se como "homeless, childless, middle-aged and loveless", como se nos últimos 20 anos não só o tempo, mas também a vida, lhe tivessem roubado a juventude.

Conhecer Sebastian foi conhecer os seus amigos de Oxford, embebedar-se de manhã à noite e viver cada dia como se fosse o último, muito à moda dos loucos anos 20. Foi pisar os campos de Brideshead, mas também conhecer Veneza, viver em Paris e descobrir a sua verdadeira vocação de pintor arquitectónico. E foi, sobretudo, conhecer a religiosa e preponderante Lady Marchmain e a vida aristocrática e regrada daquela casa, que marcaram o início do fim da sua vida tal como a conhecera.

Se a primeira parte deste romance é idílica, paradisíaca, livre, feliz, como aquele longo verão que Sebastian e Charles viveram sozinhos em Brideshead, a segunda e a terceira caminham inevitavelmente para uma decadência anunciada nesta preponderância da família de Sebastian, que o fazem tornar-se alcoólico e querer afastar-se para sempre da casa familiar. Ryder é apanhado no meio disto tudo e vive-o na primeira pessoa, daí ser interessante acompanhar primeiro a sua aproximação a Lady Marchmain, a Julia e a Cordelia (irmãs de Sebastian), depois o afastamento de Sebastian do melhor amigo, quando consumido pelos quereres e pela austeridade da sua família.

A relação entre Sebastian e Ryder é ainda hoje tema de debate, mas a típica familiaridade entre os homens da época pode explicar a grande amizade que têm um pelo outro. Ainda assim, a aproximação mais tardia a Julia é sem dúvida uma reaproximação a Sebastian, ainda que venha a descobrir que as diferenças entre eles são mais fortes do que inicialmente pareciam. Em Julia encontra o melhor e o pior dos Marchmain: a busca constante de se distanciar das regras da família e seguir o seu coração, mas com uma corrente imaginária a prendê-la para sempre ao que a mãe e Deus esperam dela.

"For in this, to me, tranquil time Sebastian took fright. I knew him well in that mood of alertness and suspicion, like a deer suddenly lifting his head at the far notes of the hunt; I had seen him grow wary at the thought of his family or his religion, now I found I, too, was suspect. He did not fail in love, but he lost his joy of it, for I was no longer part of his solitude. As my intimacy with his family grew, I became part of the world which he sought to escape; I became one of the bonds which held him."

A forma como Ryder relata este seu passado em Brideshead demonstra a queda de uma noção de sociedade que as próprias guerras vão destruindo, indicando uma nostalgia intrínseca a esta aristocracia, de um tempo que já lá vai - tal como a juventude a beleza hedonistas. 

E depois, o Catolicismo, que aqui surge tanto em forma de Igreja como de fé, cada uma com as suas peculiaridades. Na morte que está em todo o lado, mesmo no paraíso ("et in arcadia ego", a perda deste mesmo paraíso). Na conversão dos não crentes para poderem casar ou ser aceites na família. Na censura de actos menos próprios por parte dos protagonistas, na impossibilidade da felicidade pelo desrespeito à religião, no poder de uma educação fortemente católica.

Ryder vive tudo isto, condenado desde o início a nunca encontrar o seu lugar naquele meio, mas ao chegar a Brideshead, 20 anos depois, apercebe-se também, numa perspectiva arquitectónica e até religiosa da coisa, como a sua vida estará para sempre ligada à história daquela casa e às pessoas que nela viveram. A conversão tardia do autor ao catolicismo pode explicar esta identificação com a espiritualidade que o protagonista parece enfrentar, no entanto é posterior à sua necessidade de conciliação com fé que podia ter mudado totalmente o rumo da sua vida.

Evelyn Waugh é daqueles autores que, depois de lermos pela primeira vez, vamos sempre querer revisitar, como este passado em Brideshead, seja em novas leituras ou na releitura de clássicos como este. Tornou-se, num ápice, um dos meus livros favoritos de sempre, pela forma subtil como é narrado e a intensidade com que cada memória de Ryder é lida e tomada como nossa.

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