domingo, 15 de novembro de 2015

O Diário do Meu Pai - Jiro Taniguchi

"Não somos nós que regressamos à nossa terra, é ela que um dia chega aos nossos corações."
'O Diário do Meu Pai', Jiro Taniguchi
 
 Não contem a ninguém, mas li-o de uma assentada numa loja, enquanto esperava pela chegada de um amigo. Comecei sem grandes esperanças de terminar, só para ler as primeiras páginas e ter uma ideia da história. Mas quando dei por mim já estava a meio, e depois no final... e deixei-me apaixonar de tal forma por esta novela gráfica que não consegui parar até chegar à última página e encontrar esta citação maravilhosa - e que resume muito bem o espírito deste 'O Diário do Meu Pai'.

Na história, Yoichi Yamashita é um designer que vive em Tóquio com a sua família e que, ao saber da morte do pai, regressa a Tottori, a sua terra Natal, depois de uma longa ausência, para assistir ao funeral. Entre conversas e homenagens, aos poucos, Yoichi vai evocando as suas próprias memórias de infância e conhecendo o pai que nunca conheceu através dos relatos de familiares e amigos. E vai-se apercebendo de que, na realidade, a sua visão da infância não correspondia propriamente à realidade.

Talvez por ser, apesar de imaginada, uma história inspirada na infância e nas vivências do autor Taniguchi, a história é partilhada com o leitor de forma muito sentida,  muito intensa, sem artificialismos - muito dura e cruamente. Com desenhos muito bonitos, um traço simples mas sincero e diálogos e descrições também eles muito simples - contando apenas o essencial -, Taniguchi consegue transportar-nos para a sua terra natal, para os vários tempos retratados e para esta sua emocionante "memória em tinta-da-china".

Num mundo em que nos parecemos identificar apenas com acontecimentos e coisas que são próximos de nós (geográfica ou culturalmente), este 'O Diário do Meu Pai' mostra que, embora o Japão seja longínquo e toda aquela cultura seja diferente do que conhecemos, os sentimentos são o que verdadeiramente conta nesta questão da identificação. Porque todos tivemos um pai, todos temos uma ideia dele, uma memória dele, uma visão do que ele foi/é, da sua vida de trabalho, da sua relação com a nossa mãe... e que este livro questiona até ao osso, porque nem sempre o que pensamos ter acontecido foi mesmo o que aconteceu.

E, nisto, o livro evoca de forma muito relevante um 'Sense of na Ending' de Julian Barnes - e questões muito interessantes sobre o tempo e a memória. Da história do abandono da mãe ao incêndio que lhes retirou tudo, à paixão de Yoichi pelo cão Chiro, ao novo casamento do pai... tudo isto com um sentido estético muito peculiar, com imagens verdadeiramente duras e sentidas.

Ao lê-la, é impossível não ficar fã de novelas gráficas bem construídas, com significado para o autor (e, consequentemente, para o leitor) e que transmitam verdades tão próximas de todos nós. Apetece repetir o serão e passar uma tarde de Domingo numa loja, tranquilamente, a absorver histórias bonitas e emocionantes como esta.

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