quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Gente Feliz com Lágrimas - João de Melo

"Com excepção dos nomes e das cores, que se haviam delido no tempo, seriam apenas os barcos - os mesmos desse dia feliz em que papá decidira levá-la a vê-los de perto pela primeira vez."
'Gente Feliz com Lágrimas', João de Melo

'Gente Feliz com Lágrimas' faz parte das obras mágicas de literatura portuguesa com que o século XX e os seus grandes autores nos brindaram. Viaja dos Açores ao Canadá, por entre a construção da personalidade das personagens enquanto crianças, a sua emancipação do leito familiar e a tentativa de distanciamento de uma vida que não o era.

Nuno, Amélia e Luís Miguel são três dos irmãos da família retratada na história, que em crianças viveram com os pais nos Açores - antes de, cada um à sua maneira, procurar uma nova vida na capital ou no estrangeiro. A casa em que viviam era pequena e sem condições para tantos filhos, as divisórias não ofereciam privacidade, o dinheiro não chegava para os sustentar - por isso eram obrigados a trabalhar, maltratados pelo pai, sem poderem ser verdadeiras crianças. À luz do tempo, observamos como cresceram e se distanciaram (mais ou menos) desta infância sombria.

É uma história de emigração, da 'gente feliz com lágrimas' que partia nos barcos para Lisboa, que buscava uma vida diferente, melhor. Mas é também a história de Nuno, que mais tarde percebemos ser uma espécie de narrador que se dobra em vários - como a sua própria personalidade repartida entre aquele que sente, que vive, e aquele que conta. E uma história de emoções, de uma 'emigração' mais espiritual, em relação à destruição que os assolava em casa.

Daí que comecemos com relatos na primeira pessoa, por parte dos três irmãos, e aos poucos nos vamos perdendo ligeiramente no narrador omnisciente que conta a história de um outro - ou de si mesmo? - por entre as recordações da infância e as circunstâncias presentes que o fazem recordar o passado. 

"Chorava não exactamente por si, mas por todos os irmãos, sabendo-os condenados a um tempo de espera sem esperança. Só de imaginar que os rostos viriam perfilar-se na sua despedida, o coração reagiu com um novo choque de aflição e contraiu-se todo até ficar com a espessura da pedra."

É como se todos eles tivessem passado uma vida inteira a tentar descobrir-se e ultrapassar as vidas sofríveis que tiveram enquanto 'viveram' com o pai, e no final nem eles próprios sabem se o conseguiram. Nuno, em particular, por ser o gémeo que sobreviveu, mas o mais fraco, aquele que nunca ninguém soube capaz de sobreviver à vida. Lembra, de certa forma, um Vergílio Ferreira 'realista', na forma como Nuno foge de casa para ir para o Seminário (com a vocação única de ir para Lisboa) e Amélia para um convento na capital, para poder mais tarde estudar enfermagem. E, tal como nas obras deste, conta bem mais do que aquilo que a sua realidade mostra.

O que nos cativa desde a primeira página é a escrita muito cuidada, complexa, rica em pormenores, histórias e carregada de emoção. É um relato verdadeiramente sentido, bem construído, que parece mesmo vivido - como se cada parágrafo valesse o esforço da sua complexa leitura, pela forma simples como nos leva a compreender as histórias que neles se inserem. 

João de Melo tem esta capacidade de nos roubar a atenção do mundo para a concentrar na sua 'gente' que não parece ter sabido e conseguido escapar às lágrimas e ser, simplesmente, feliz. As longas descrições e os relatos quase acessórios com que por vezes nos deparamos são largamente compensados por todo o sentimento que é colocado nas palavras - e pela inevitabilidade de toda a obra, do destino destas personagens que vamos aprendendo a conhecer e identificar.

"Amei-lhe as grandes mãos, como sabe, por per pensado então que o amor era só isso, contemplar o azul das veias e acreditar que um sangue, o vinho generoso da primeira paixão, me estava prometido desde o princípio dos tempos."

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