quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Valsa do Imperador - Maria Scherer

"Porque sei tudo sobre ti e tu sabes tudo sobre mim, sem que precisemos de dizer uma palavra que seja."
'A Valsa do Imperador', de Maria Scherer

"Szeretlek". Uma palavra tão directa, sincera, comovente, que se destaca num mundo tão irrepreensivelmente falso e codificado, no qual verdade e sinceridade são valores quase esquecidos. Maria Scherer não escreve uma história de ficção banal, com princípio, meio e fim, mas antes uma reflexão permanente de uma mulher, que podia ser ela própria ou qualquer uma de nós, sobre o mundo que a rodeia; sobre si mesma, os outros, o amor e a viagem que é começamos aos poucos a conhecer o nosso íntimo. Muitas vezes só o conhecemos quando percebemos que não somos tão felizes quanto pensávamos.

Andrea é uma mulher dinâmica, jornalista sueca de uma revista feminista, casada e com um filho pequeno. Desloca-se a Paris para participar num congresso internacional de mulheres, fazendo um discurso diferente do planeado, expondo os seus medos e fraquezas. Encontra Josef no final, um homem mais velho que nunca viu, que é exactamente o oposto do que ela considera o homem ideal num mundo em que se luta pela libertação da mulher. Mas algo os une desde aquele primeiro olhar que vai mudar para sempre a forma de Andrea ver o mundo e, sobretudo, de se ver no mundo.

O medo domina grande parte desta dissertação de Andrea n'A Valsa do Imperador', a partir do momento em que Josef entra na sua vida. Um medo que já vem do passado, da relação com o pai, do ciúme, da insegurança, sentimentos que são exacerbados por este homem desconhecido e misterioso, sobre o qual não sabe nada mas que, ao mesmo tempo, compreende totalmente. Não têm nada a ver um com o outro; ele retira-a da sua zona de conforto, faz-lhe rosar as faces e deixa-a sem saber o que dizer ou fazer. No entanto, depois de o conhecer, tudo o resto parece tão inútil e sem sentido. Toda a sua vida parece ter sido encaminhada para aquele momento.

"Sou a primeira mulher verdadeiramente independente da História. Sou uma mulher única e partilho esta unicidade com um número cada vez mais elevado de mulheres da geração do pós-guerra. Por que não consigo dominar a paixão? Por que não obedecem os meus sentimentos quando lhes ordeno que se resfriem e acalmem?"

Os pensamentos de Andrea irrompem pelas páginas em interrogações (quase retóricas, para as quais podemos apenas elaborar hipóteses de resposta, dado que nada é certo no que diz respeito à natureza humana, sempre tão subjectiva), em pensamentos muitas vezes contraditórios. Uma insegurança que depressa se transforma em segurança; um receio da paixão, do amor, devido a racionalizações de independência e liberdade, quando as convicções nada são em comparação com os verdadeiros sentimentos. 

Ela vai encontrando, ainda assim, certezas onde apenas há incertezas. Vai encontrando os estilhaços da verdade como se tivesse, de um momento para o outro, quebrado o espelho que apenas mostra um simulacro da pessoa que podia ser mas nunca teve coragem de ser, libertando-se do passado inseguro que sempre a condicionara. Josef opera esta transformação nela, e talvez nele também, ao descobrirmos o verdadeiro amor que os une. Um que ela apenas encontrara, até então, no que sentia pelo filho Jon.

Há uma certa irrealidade, ou improbabilidade, digamos assim, nos diálogos, que parecem saídos de filmes intelectuais com reflexões filosóficas baratas. Mas não são baratos, pelo contrário. Se conseguirmos ler as entrelinhas, apercebemo-nos da profundidade dos seus sentimentos, do relato de uma mulher que passa por diversos estados ao longo da curta acção, que mente a si mesma, que se vai conhecendo melhor. Sempre na primeira pessoa, num contacto real com o leitor que nunca consegue abstrair-se totalmente da sua mente. Tornamo-nos constantemente uma Andrea que se questiona constantemente.

"Continua a ser um estranho, mas amo-o e já não tenho medo. Se escutar a voz desconhecida do meu íntimo a que tão poucas vezes dou ouvidos, sei tudo a seu respeito. Já aconteceu tudo, já tudo foi dito; é apenas uma questão de tempo."

Foi interessante descobrir este 'A Valsa do Imperador', que mais não é do que uma autêntica valsa, sempre a saltitar subliminarmente de um lado para o outro, contudo com consequências profundas para quem passa pela experiência. Uma verdadeira leitura marginal. Agora é rondar novamente a Cash Converters em busca dos restantes volumes da "saga" (se os há, que a informação sobre a autora é mínima) - de preferência, também a 0,50€. Nada é mais valioso do que um bom livro em segunda mão.

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