domingo, 7 de outubro de 2012

a 'camera lucida' de Barthes

"As imagens são mais vivas do que as pessoas"

Às vezes temos surpresas agradáveis com livros que temos de ler para algumas disciplinas, e  'A Câmara Clara' de Barthes foi uma delas. É o homem, Roland, que escreve, reflectindo acerca da Fotografia, com F maiúsculo, dado tudo o que o seu surgimento e o seu carácter misterioso significam. Mais do que uma imagem, uma fotografia é algo que aconteceu e que não se repetirá; é alguém que foi, mesmo que já não o seja; é a vida e a morte, é a história e em simultâneo a alucinação. Barthes mostra-nos tudo isto através de imagens e palavras, levando-nos também a reflectir acerca deste dispositivo.

É a clareza com que transmite as suas ideias que cativa, em primeiro lugar, com uma escrita fluida e coerente que quase se assemelha a um discurso falado, um monólogo com o seu interior. O que relata é a sua experiência como Spectator perante uma fotografia, na qual todos observamos mais ou menos mesmo studium, mas cada um, individualmente, descobre o seu punctum, o pormenor que fere e que atrai a atenção.

Barthes vê a fotografia como forma de prolongar a vida, ou escapar à morte, dado que a fotografia em si, ao imobilizar um momento, é imortal. Contudo, as suas reflexões filosóficas perdem-se entre a vida e a morte, no noema "isto-foi", no referente fotográfico, no passado que foi real e no real que já não é o passado. A não ficcionalidade da imagem fotográfica não deixa de confundir a memória, numa peculiar relação com o tempo que a "coloca às claras", mas sempre misteriosamente por desvendar.

Compara-a com o cinema, elevando a sua especificidade e capacidade de revelar a verdade, ainda que não necessariamente a realidade. Fala aberta e afectuosamente da mãe, de como a procurou reencontrar em fotografias antigas e apenas numa a conseguiu ver verdadeiramente, sem máscaras, quase sem medium. Desfaz-se em pensamentos fundamentados e apaixonantes sobre a fotografia, tornando-se impossível não fechar o livro por momentos e pensar no que lemos, nas fotografias que conhecemos, até mesmo na vida que temos, no tempo e na recordação.

Uma maravilhosa viagem e uma bonita surpresa neste início de ano lectivo, sem dúvida a abrir novos horizontes!

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