terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Avó e a Neve Russa - João Reis

"Agora, ela só tem de o beber para que as dores desapareçam, e quando isso acontecer, ela conseguirá respirar mais porque não sentirá dores, e encherá os pulmões e o ar irá subir-lhe à cabeça e descer até ao coração, e o coração aumentará e não lhe chegará só ao umbigo mas aos pés que deixarão de estar frios, e já poderá caminhar e voltar para casa: voltaremos a ser uma família, mesmo que a Babushka continue a desenhar pássaros na oncologia e tenha icónicos, flores, castanhas doces e fotografias na mesinha de cabeceira para ajudar na cura."
'A Avó e a Neve Russa', João Reis

Mesmo num dia quente de Verão sentimos o coração gelar com esta história de um menino que só quer levar a avó de volta à neve russa da sua infância e salvar a sua família de um destino inevitável. 'A Avó e a Neve Russa' é o relato de uma criança de uma tragédia a que foge através da sua imaginação e da força de vontade - e uma mistura de dor e esperança que se transformam numa experiência sensível e inesquecível para qualquer leitor.

Um menino de dez anos ajuda a cuidar da Babushka, a sua avó russa e idosa, emigrante no Canadá, que está doente devido aos "ares atómicos" e que por isso vive mergulhada nas memórias do seu passado em Chernobyl e da infância na Rússia. O seu neto mais novo ainda não pode ajudar a "aumentar os rendimentos" como o irmão Andrei, mas não desiste de ajudar a Babushka a recuperar, com a ajuda dos amigos, dos "icónicos" que lhe cola no peito, das fotografias que lhe leva e que podem fazer milagres. E nenhum obstáculo o dissuade de crescer mais depressa e partir numa viagem ao México para trazer um milagroso cacto que vai certamente salvar os pulmões da avó.

Este 'herói' anónimo é o narrador da sua própria história, em toda a sua inocência de criança - e ao mesmo tempo com toda a coragem também ela ingénua e inconsciente, mas pura como a neve que a avó recorda com saudade. A sua perspectiva é, do início ao fim da obra, a de uma criança que não se apercebe da gravidade do estado da avó, que acredita que tudo é possível e que as pessoas são boas, mesmo tendo já ouvido tantas histórias de pessoas e tempos maus em que os nazis massacraram os judeus como o seu amigo Matt, ou em que os comunistas perseguiram inocentes como o seu avô que era contra a revolução russa.

"Uma vez, gostei da Élise na escola, quando tinha uns oito anos e era mais criança do que sou, e já não sei bem ao certo como pensava então, porque o cérebro era mais pequeno e não cabiam lá dentro tantas recordações quanto as que cabem agora. Gostava dela e quis dar-lhe um beijo e andar de mãos dadas no recreio, por isso escrevi num papel e perguntei-lhe se queria ser a minha mulher, para fazer as coisas como um homem sério faz. Para meu azar, a Élise nasceu na época errada e não apreciou um homem decidido como eu, por isso, escreveu no papel: 'Não.' Seguimos a nossa vida, ela para os braços de um outro rapaz. É assim que as coisas são hoje em dia, e não como nos filmes a preto e branco ou com cores muito fortes, daqueles que passam à hora a que ninguém os vê."

Quando há esperança e inocência suficiente para se acreditar num final feliz, será que este é possível? Enquanto à sua volta os adultos sofrem e têm sentimentos, o que a seu ver "causa muitos transtornos", ele vê a vida como uma possibilidade, mais do que como o culminar de uma dor inevitável. E ao sentir esta esperança faz tudo o que está nas suas mãos para ajudar a salvar a sua Babushka, mesmo que não haja nada que ele possa realmente fazer.

Todos os outros - incluindo "o senhor doutor da medicina" que, segundo ele, põe a avó a desenhar pássaros para a curar, num dos muitos equívocos da sua percepção - são adultos que só vêem o que está a sua frente e o tratam como uma criança, quando na verdade ele é um homenzinho, que gosta muito de saber usar a palavra "porém" e tem um vocabulário que orgulha muito a sua professora primária.

Emocionamo-nos constantemente com a sua capacidade de ser "adulto" e crescer depressa, com o seu conhecimento da história do mundo e de histórias reais de dor e solidão, mas sobretudo com a sua inocência na incapacidade de ver o mundo real, dos adultos, feio e doloroso, onde a esperança raramente se vê e se sente. Um mundo que ele não desconhece, mas que parece ignorar inconscientemente, para não se deixar levar por tamanha dor, e para um orfanato onde será separado do irmã se a avó por acaso tiver mesmo de morrer às mãos dos ventos atómicos.

João Reis revisita em 'A Avó e a Neve Russa' a sua vivência do Canadá e a sua voz de criança de dez anos, que vê e ouve muitas coisas face às quais sente muitas outras coisas. Uma história muito portuguesa, escrita com uma enorme sensibilidade, sobre a memória e a esperança, que nos deixa durante algum tempo a pensar no seu significado muito próprio para cada um de nós. E torna-se sem dúvida uma obra prima na nossa estante, a começar pela maravilhosa ilustração da capa e a culminar na mistura de sentimentos de alegria e dor que nos continuará para sempre a fazer sentir.

A Amiga Genial - Elena Ferrante

"Perguntei-me o que fazia eu naquele automóvel. Estavam ali os meus amigos, é certo, estava o meu namorado, íamos para a festa do casamento de Lila. Mas essa festa, precisamente, confirmava que Lila, a única pessoa de quem eu ainda precisava apesar das nossas vidas divergentes, já não pertencia àquele mundo, e, faltando ela, qualquer ligação entre mim e aqueles jovens esgotara-se. Então porque não estava na companhia de Alfonso, com quem partilhava a origem e a fuga? E, sobretudo, porque não me detivera para dizer a Nino: fica, vem ao copo-d'água, diz-me quando sai a revista com o meu artigo, vamos falar os dois, vamos escavar uma toca que nos ponha à parte desta forma de conduzir de Pasquale, da sua vulgaridade, dos tons de voz violentos de Carmela e Enzo, e também - sim, também - de Antonio?"
'A Amiga Genial', Elena Ferrante

A especulação em torno da suposta "maravilhosa" escrita de Elena Ferrante, e sobretudo em torno da sua identidade desconhecida, elevou a minha curiosidade ao ponto de me levar a comprar o primeiro livro da tetralogia na Feira do Livro deste ano. E agora, ainda que não me tenha apaixonado do início ao fim, chatice máxima: fiquei com curiosidade de ler os restantes.

'A Amiga Genial' acompanha a infância e a adolescência de duas amigas de um bairro popular nos arredores de Nápoles: Elena Greco e Lila Cerullo. Conhecem-se na primeira classe e separam-se mais tarde quando Elena segue o seu percurso escolar e Lila não, ficando a trabalhar para o pai sapateiro e procurando ajudar a família. Se na infância Lila era sempre a melhor na escola, na adolescência vai ser a mais bonita e preferida pelos rapazes, o que leva sempre Elena a sentir-se inferior a ela, invejosa da sua magnificência e ao mesmo tempo quase obcecada pela sua personalidade corajosa. Mas é ela que permanece, para Lila, a sua eterna "amiga genial".

É de forma gradual, na primeira pessoa e com uma escrita simples mas sentimental, que Elena Ferrante nos leva pela história das duas meninas já quase mulheres, que crescem em caminhos diferentes mas nunca deixam de gostar uma da outra e de se assemelhar de certa forma: ambas cultas, inteligentes e com vontade de aprender sempre mais para se superarem a si mesmas (e talvez uma à outra?).

Nestas fases de crescimento - até um final totalmente em aberto para as próximas "aventuras" da vida de Elena e Lila - sofrem desilusões, vivem experiências que lhes mudam a vida, voltam a cruzar-se com pessoas do passado e sobretudo tentam encontrar o seu próprio caminho num bairro pobre, em famílias pobres que apenas procuram trabalhar para sobreviver, num ambiente dominado pelas intrigas do passado. A sua busca de conhecimento e de um lugar diferente daquele a que parecem pertencer fá-las viver tudo de forma muito intensa e ajuda-nos a identificar-nos com os episódios que Elena vai relatando.

Esta primeira obra das quatro que compõem a história completa da Amiga Genial é ainda muito iniciática, parece-me, do que Elena Ferrante pretende mostrar nesta história de uma vida. Há paixões, amizades, obsessões e invejas desde a infância das duas raparigas, mas o livro termina exactamente como podíamos esperar de uma obra em quatro volumes: em aberto, no meio de uma cena importante para a história, numa inconclusão que nos obriga a procurar respostas nos livros seguintes.

Julgando apenas por este primeiro volume, não me parece fazer muito sentido o hype em torno de Elena Ferrante. A sua escrita, ainda que pessoal e sentida, não traz nada de novo à literatura contemporânea. A história leva-nos na corrente pela facilidade com que nos é mostrada e com que nos identificamos com alguns episódios da sua infância e adolescência, mas nada mais do que isso. Entretém, lê-se rapidamente e de forma interessada, se formos sem expectativas e com vontade e curiosidade de conhecer a autora. Talvez também não pretenda ser mais do que isso mesmo!

Mau Tempo no Canal - Vitorino Nemésio

- Mas não voltas tão cedo… João Garcia garantiu que sim, que voltava. Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua honra. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes.
'Mau Tempo no Canal', Vitorino Nemésio

Qual Romeu e Julieta dos Açores, este 'Mau Tempo no Canal' é uma das grandes histórias literárias portuguesas de amores proibidos, de esperanças frustradas e dores dos corações mais apaixonados. Uma obra densa, com uma escrita descritiva e sentimental, que nos cativa pela complexidade das relações sociais que representa.

'Mau Tempo no Canal' tem lugar na primeira metade do século XX e acompanha a história de duas famílias com rivalidades antigas, em particular dos dois jovens mais novos de cada uma delas, que começam a obra completamente apaixonados um pelo outro: Margarida Dulmo e João Garcia. Quando o jovem de origem modesta parte para Lisboa é Margarida que fica para trás, na Horta, junto da sua família rica em falência, apenas voltando a ser feliz com a chegada do tio Roberto Clark e a perspectiva de ir com ele para Inglaterra e abandonar a vida insular.

"O silêncio do Bairro Alto assaltava-o, como um turno de sentinelas que estão para entrar de quarto, acordando-lhe as recordações e as ideias associadas, para que se pusessem alerta a fim de que o mundo não morresse. O mundo, aliás, nunca lhe parecera tão vivo, representado na sua solidão de solteiro pela própria força do silêncio da noite e do esgotamento de um dia gasto à espera daquela mensagem de Margarida, que dois meses enchiam de uma necessidade dolente e tornavam cada vez mais longínqua."

Neste relato da sociedade açoriana da época, da peste que assola as ilhas e dos ressentimentos existentes entre as duas famílias de classes distintas, ao mesmo tempo que Nemésio pinta um quadro geral dos Açores do século XX foca-se também na história particular destes dois jovens e em particular de Margarida. Respira-se em todo o romance uma necessidade de libertação da insularidade, desta visão fechada sobre as condições sociais - e é Margarida quem o vê acima de todos os outros.

Há, ao longo de toda a obra e de todos os encontros e desencontros que Vitorino Nemésio encontra para demonstrar a ilha que cada ser humano tem a prender uma parte de si, um sentimento de opressão, de tempestade (literal e figurativa) neste canal que separa o Faial do Pico e também no coração dos que ainda têm ambição e esperança de fugir às convenções, ao que a sociedade açoriana impõe.

A escrita densa de Nemésio e o seu "sotaque literário" à moda dos Açores podem atrasar um pouco a leitura, mas não deixam de fascinar pelo detalhe e de promover uma identificação com os pensamentos e sentimentos dos protagonistas. A sensibilidade com que cria Margarida e João faz-nos torcer pela sua liberdade e pelo seu amor - mesmo até depois do final do romance.

sábado, 5 de agosto de 2017

A Fórmula da Felicidade - Nuno Duarte e Osvaldo Medina

Existirá uma fórmula da felicidade que nos torne a todos pessoas felizes apenas por a ouvirmos da boca do seu genial autor? Esta é a premissa também ela genial desta novela gráfica em dois volumes, bem portuguesa e muito bem escrita, que deixa na boca um gosto amargo de dor e esperança na humanidade.

Vitor é um rapaz aparentemente normal, esforçado na escola e inteligente, que vive no seio de uma família disfuncional: sem pai, com uma mãe frágil que atrai homens detestáveis e a atenção de toda a cidade onde vivem. Um dia surge-lhe na mente uma fórmula matemática da felicidade e percebe que, ao dizê-la em voz alta a cada pessoa, estas se sentem mais felizes que nunca. Torna-se uma celebridade e é constantemente procurado por todos, o que o deixa sem vontade de continuar a vestir esta personagem que, ao contrário dos outros, não lhe trouxe felicidade. A vida difícil dos que o rodeiam e o regresso de alguém do passado leva-o a pôr em causa a sua nova realidade e a querer escapar ao que se tornou antes que seja tarde demais.

Se o desenho parece, do início ao fim, um esboço de um trabalho inacabado - propositadamente, parece-me, pois Vitor também não tem a sua vida estruturada como gostaria -, a história está bastante clara na mente dos autores, a fluidez da escrita é um traço muito característica desta obra. As personagens são animais em lugar de pessoas, mas comportam-se como pessoas, vivem num mundo que pertence aos humanos, como se de uma fábula se tratasse, mas sem o final moralista - ainda que, a todos os níveis, forte e sensibilizador.

A forma como o segundo livro desta série pega na história do primeiro e distorce a inocência de Vitor, tornando-o uma pessoa verdadeiramente infeliz com a vida que a inteligência lhe deu (ao contrário do que seria usual), torna este segundo volume ainda mais fascinante do que o primeiro. E isto porque Vitor, novamente, sente que precisa de uma mudança na sua vida e que a fórmula já não serve o propósito que pretendia ao criá-la. O mundo continua a destruir-se, a humanidade continua perdida, e não são momentos frágeis e efémeros de felicidade (efémeros como toda a felicidade o é, sempre) que o vão impedir.

O final triste mas belo, toda a esperança contida naquelas palavras e imagens finais, na vida face à morte, na felicidade real face à inventada/mostrada, na simplicidade da vida e na humanidade, face à maldade e ao que nos torna pessoas piores - tudo isto torna 'A Fórmula da Felicidade' uma pequena grande obra-prima da banda desenhada de cunho nacional :)