segunda-feira, 26 de junho de 2017

Gramática da Fantasia - Gianni Rodari

"Inventar histórias para crianças e ajudá-las a inventar histórias sozinhas (...) não para que todos se tornem artistas, mas para que ninguém seja escravo."
'Gramática da Fantasia' - Gianni Rodari

Foi talvez a mais impulsiva das minhas compras na Feira do Livro de Lisboa este ano. Um livro pelo qual me apaixonei, literalmente, à primeira vista, e que me apaixonou novamente a cada página, como a imaginação faz às crianças a cada história inventada.

Gianni Rodari reune neste pequeno livro pedagógico a sua aprendizagem do ensino primário às crianças, fruto do seu interesse pela literatura infantil e das escolas italianas em que leccionou. Contando histórias às crianças, descobriu que elas também tinham muitas para lhe contar. E muitas perguntas para fazer, como é típico das crianças, entre as quais: "Como se inventam histórias?". A sua maior descoberta é a existência destas histórias e desta capacidade de imaginar e criar que existe dentro de cada criança.

Diz logo desde o início que, apesar do título, isto não é uma gramática da fantasia. Ainda não existe documentação e estudos suficientes para fazê-lo, se é que teorizar sobre a imaginação das crianças alguma vez será possível. Ainda assim, é um exercício muito interessante sobre a mente infantil, sobre a importância da literatura e da criatividade no crescimento enquanto pessoas e na aprendizagem escolar, e sobretudo uma mostra de tudo o que está errado na educação primária - que mais do que promover esta fantasia a oprime, numa idade muito pequena, em nome da correcção gramatical, da perfeição dos ditados e da ditadura da 'resposta certa'.

"Para que mais serve a história? Para construir estruturas mentais, para estabelecer relações como 'eu e os outros', 'eu e as coisas', 'as coisas reais e as coisas inventadas'. Serve para calcular as distâncias no espaço ('longe e perto') e temporais ('uma vez e agora', 'antes e depois', 'ontem hoje e amanhã'). O 'era uma vez' das histórias não é diferente do 'era uma vez' histórico, mesmo quando a realidade da história, como a criança descobre logo, é diferente da realidade em que ela vive."

A cada capítulo revela vários processos de estimulação da criatividade nas crianças (e em todos nós!) e possíveis exercícios para os professores incentivarem a leitura e a escrita na escola, como o "binómio fantástico" (em que temos de juntar duas palavras que à primeira vista não têm nada a ver) ou a descrição do que está à sua volta (a mesa de jantar, o quarto, etc.). Damos por nós a criar as nossas próprias histórias e a mergulhar neste universo que nos leva novamente para os primórdios da vida, para a inocência de se ser criança.

Entramos pela janela - sempre os caminhos secundários para sairmos da nossa zona de conforto e podermos ir mais além - e encontramos esta casa recheada de possibilidades para escolhermos e construirmos as histórias à nossa maneira. As histórias são uma forma de enfrentar medos, de conhecer o mundo real, de perceber melhor quem nos rodeia. E sobretudo para as crianças, são muitas vezes o seu primeiro contacto com o seu papel no mundo.

Um livro verdadeiramente inspirador para quem quer que o leia - miúdos ou graúdos, educadores ou simples interessados na arte de inventar e fantasiar. Como eu :) A melhor compra mais impulsiva de sempre. Uma das minhas obras-primas de prateleira para reler sempre que precisar de uns pós mágicos de inspiração!

O Leopardo - G. Tomasi di Lampedusa

"Dividido entre o orgulho e o intelectualismo maternos e a sensualidade e leviandade paternas, o pobre príncipe Fabrizio vivia num descontentamento permanente sob os olhares severos de Júpiter, contemplando a ruína da sua raça e do seu património sem dar mostrar de qualquer actividade e, mais ainda, sem o menor desejo de lhe pôr cobro."
'O Leopardo', G. Tomasi di Lampedusa

'O Leopardo' é a história de uma família e de uma classe em decadência, por muito que tenha o poderoso leopardo como símbolo. Leva-nos numa viagem à segunda metade do século XIX, abalando-nos com cada relato da sociedade, cada momento apaixonado, cada espelho da fragilidade humana e da efemeridade das coisas.

Em 1860, durante o Risorgimento italiano que marcou a unificação do país, o príncipe Fabrizio decide refugiar-se com a família na sua casa de férias de Donnafugata até a luta política terminar. À sua volta, no seio da sua família, vai acontecendo a revolução: o sobrinho Tancredi adere às tropas revolucionárias, Don Calogero é o novo líder político local, e a sua filha, a bela Angelica, é muito diferente de mulheres como a sua própria esposa. À medida que vai aceitando estas mudanças para que tudo possa ficar na mesma, Fabrizio apercebe-se da volatilidade das paixões e da impossibilidade de voltar aos tempos de domínio da aristocracia.

Na família Salina a religião é das coisas mais importantes do dia. O padre Pirrone acompanha-os dia e noite, vive as suas angústias e as suas felicidades, é o principal conselheiro e ao mesmo tempo aquele que tudo sabe sobre os segredos de cada um dos elementos da família. Mas a leviandade do príncipe em tudo contrasta com a beatitude da princesa, e em tudo o que é religioso é também pouco correcto à maneira da sua classe.

Para Tancredi passa toda esta sensualidade e leviandade, o que faz Concetta, filha de Fabrizio, apaixonar-se pelo primo. Até nesta união provável entra a luta de classes e a revolução para destruir os sonhos da classe perfeita: Angelica é filha do povo, é normal e nada aristocrata. É por ela que Tancredi se perde de amores, e nem Fabrizio resiste aos encantos da filha do homem que representa também a ascensão da burguesia na liderança de Donnafugata.

Há em tudo isto um sentimento de desilusão, de impotência e de decadência da classe aristocrática, muito bem personificados pelo próprio Fabrizio. Por muito que seja permissivo, que ajude a concretizar a revolução e aceite o casamento do sobrinho com uma plebeia para mostrar a sua receptividade à nova ordem, há nele uma tristeza imensa, uma sensação de fim e de perda de algo que não é possível recuperar. É um sentimento de orgulho, de classe, de respeito pela sua posição, que se perde irremediavelmente.

E ao mesmo tempo que damos conta desta mudança ao longo de toda a obra de Lampedusa, a sua escrita subtil vai-nos oferecendo momentos muito bem humorados, recheados de histórias de família, de conflitos de personalidades, de momentos muito característicos de cada personagem, que nos levam quase sem nos apercebermos para este desfecho histórico de derrota. O baile de apresentação de Angelica à sociedade é também uma conciliação de interesses e a consolidação da união das duas classes - e só Fabrizio parece aperceber-se da dimensão do evento.

Tancredi não sabe o que quer da vida e muda constantemente de lado; é jovem, tem uma vida inteira pela frente, e tanto lhe faz quem governa desde que possa continuar a sentir tudo como seu, como presente. Já Fabrizio sente, agora, que o seu tempo já passou; que nada pode fazer para reverter a revolução e que o mundo que conhecia, em que foi criado e que ajudou a manter para os seus filhos, não existe mais.

Há histórias romanceadas e romances verdadeiramente históricos, que mais do que criarem ficção em torno da história a mostram através de uma história ficcionada. E o que Lampedusa faz neste romance é exactamente isso. 'O Leopardo' é uma obra clássica e inesquecível que deu um filme igualmente imperdível, com uma escrita intensa personagens que dificilmente nos sairão da memória. E ainda bem!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

N or M? - Agatha Christie

"I know then that they are just human beings and that we're all feeling alike. That's the real thing. The other is just the war mask that you put on. It's a part of war - probably a necessary part - but it's ephemeral."
'N or M?', Agatha Christie

Agatha Christie é sempre genial nas suas histórias policiais ou de agentes secretos com missões mega importantes. É o caso deste terceiro livro da sua saga "Tommy & Tuppence", o meu primeiro contacto com a dupla e um forte indício de que todos os seus mistérios serão igualmente inesquecíveis.

Durante a II Guerra Mundial, Tommy e Tuppence, já reformados das lides dos serviços de inteligência, são novamente contactados com uma missão muito especial: descobrir entre os homens e mulheres hospedados em Sans Souci, um hotel junto à costa, dois agentes Nazis disfarçados de cidadãos normais - nomes de código N e M - que acabaram de matar o melhor agente britânico. Não se pode confiar em ninguém nesta missão ultra secreta que os leva a adoptar nomes e personalidades falsas e a fingir que não se conhecem.

O mais especial deste pequeno livro de fácil leitura é o contraste entre o início tranquilo e o final recheado de acção. Começa com Tommy e Tuppence em casa, reformados e aborrecidos por já não terem missões para cumprir nem serem mais jovens, para os contactarem para estes trabalhos perigosos e emocionantes. E afinal são escolhidos exactamente pela sua sabedoria, e sucede-se mais um episódio das sua aventuras, com inimigos perigosos, situações de risco e muita emoção.

Entre os hóspedes de Sans Souci há muitos que suscitam a desconfiança de Tommy e Tuppence, mas o mistério não é resolvido antes de serem encontradas algumas "toupeiras" dos próprios serviços de inteligência britânicos. Numa guerra não se pode confiar nem nos amigos, mesmo que todos estejam ali por obrigação e não queiram prolongar o conflito por mais tempo. Todos são inimigos e a traição é uma constante. É talvez o ensinamento mais sério que podemos retirar desta obra.

A comédia também está sempre presente, no desconhecimento da filha sobre o trabalho dos pais, estando também ela envolvida na espionagem de guerra, e nas tentativas constantes de esconder dos outros hóspedes a relação e Tommy e Tuppence. Mas também são muitos e intensos os momentos de perigo que vivem - e que nos fazem agarrar a estas personagens de forma ainda mais apaixonada.

'N or M?' será talvez mais revelador para quem conhece estas personagens de aventuras anteriores, no entanto não deixa de ser uma aventura interessante, com os seus apontamentos de comicidade, que nos faz ver um novo lado de Agatha Christie dentro do seu ambiente literário dos policiais. Uma história de guerra e de espionagem para quem não deixa passar uma obra prima sobre estes temas!