segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Peter Pan & Peter Pan in Kensington Gardens - J.M. Barrie


"All children, except one, grow up."
'Peter Pan', J.M. Barrie

É um clássico da literatura juvenil e uma das histórias mais conhecidas que a Disney adaptou ao cinema. 'Peter Pan' é, no livro que J.M. Barrie trouxe ao mundo, uma personagem bem mais negra do que a que conhecemos - e a sua vida ficcionada uma história dura, adulta e comovente como poucas histórias para crianças de todas as idades.

Peter Pan é o jovem que nunca cresce, que entra pela janela do quarto de Wendy Darling e dos irmãos em busca da sua sombra e muda para sempre as suas vidas. Leva-os a voar para a Terra do Nunca, onde lidera um grupo de rapazes 'perdidos', fala com fadas e depressa faz com que os convidados esqueçam o local de onde vieram, a sua história e a sua família. Wendy torna-se a 'mãe' de todos os rapazes, a que cuida deles em todos os momentos, e Peter o 'pai' que os leva a viver aventuras e a lutar contra índios e piratas como o Capitão Hook.

Nestas histórias de crianças há sempre bons e maus, o bem e o mal representados em certos estereótipos e personagens com as quais facilmente nos identificamos. Há também uma certa idealização dos pais e dos adultos como seres radicalmente diferentes das crianças, que não as compreendem, que não sabem o que é ser criança. Há maus da fita, como o Capitão Hook, e os bons que nunca se abandonam uns aos outros e lutam pela sobrevivência.

Mas há muito mais do que isso nestas aventuras que Peter Pan vive com os novos amigos e os meninos perdidos na Terra do Nunca: há por detrás delas um rapaz que nunca cresceu. Peter não é mais do que um menino mimado que odeia a figura materna, por a sua mãe o ter abandonado e substituído por outro menino; é egoísta, inconsciente e irrealista, só ouve e lembra aquilo que diz,;não conhece nada da vida - não sabe o que é um beijo nem entende o verdadeiro significado das coisas.

"They are the children who fall out of their perambulators when the nurse is looking the other way. If they are not claimed in seven days they are sent far away to the Neverland to defray expenses. I'm captain."

Se Peter esqueceu por completo a sua vida antes da Terra do Nunca, Wendy nunca quis ficar ali para sempre. Quando chegou a altura certa, quis regressar a casa, para junto dos pais, com os irmãos que já não se recordavam bem de ser crianças normais e com todos os novos irmãos que ganhou graças a Peter. Mas Peter nunca quis voltar, só ocasionalmente e enquanto lhe foi possível lembrar-se, por Wendy e por toda a sua linhagem de filhas e netas a quem foi dando a conhecer a sua residência permanente.

É, por isso, mais do que uma história para crianças recheada de aventuras, de bons e maus, de crianças felizes, uma história de falta de amor, escrita de uma forma descritiva mas intensa, com situações verdadeiramente tristes e perigosas, que terminam sempre deixando-nos a lágrima ao canto do olho.

Depois da intensidade da difícil vida de Peter Pan, por quem simpatizamos pela inocência típica do que é ser criança e nunca vir a ser adulto, a segunda história fica necessariamente aquém das expectativas, mostrando-nos a história de todos os que fogem de casa para visitar os Kensington Gardens e a do próprio Peter ao regressar a casa e ver que já era tarde demais. É uma espécie de prequela da obra original, igualmente negra e muito mais adequada a uma leitura adulta do que juvenil. Ainda assim, faz parte do imaginário de J.M. Barrie e é interessante conhecer melhor este mundo alternativo que criou.

Barrie eternizou em Peter 'Pan' - a palavra que vai para sempre caracterizar a eternidade da juventude, a capacidade de nunca ter de crescer e chegar à idade adulta - o seu irmão de 14 anos que morreu precocemente, e ao fazê-lo criou um amigo eterno para todas as crianças que, por o serem, precisam sempre de amigos e aventuras onde desenvolver a sua imaginação, de uma quantidade infinita de pó de fadas como a Sininho para poderem voar até onde a criatividade os levar. Temos de lhe agradecer esta capacidade de mexer com crianças e adultos de uma forma tão diferente e com uma sensibilidade tão própria dentro de cada um de nós.

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