terça-feira, 10 de maio de 2016

Amok e Carta de uma Desconhecida - Stefan Zweig

"- Amok?... Creio recordar-me... é uma espécie de embriaguez... entre os malaios.
- É mais do que embriaguez... é loucura, uma espécie de raiva humana, literariamente falando... uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcoólica não se pode comparar."
'Amok', Stefan Zweig

É muito fácil deixarmo-nos conquistar pela escrita espontânea e sentida de Stefan Zweig - e então quando já fomos anteriormente conquistados, a sua sensibilidade, a emoção e a fluidez dos seus relatos sempre tão pessoais não cessam de nos apaixonar. Esta aquisição em segunda mão não podia ter sido mais profícua: um verdadeiro 'leve 3 pague 1' inesquecível.

'Amok' é a primeira história que o autor nos dá a conhecer nesta edição. Como é habitual em Zweig, trata-se de um relato de vida, contado por um homem nervoso que se esconde de todos num navio a caminho da Europa, a um desconhecido que anos depois nos dá conta desta conversa confidencial. O homem, médico, foi abordado por uma senhora com uma solicitação médica muito sensível, que inicialmente desvalorizou. No entanto, ao querer ajudá-la, apercebe-se de que nada pode fazer para voltar atrás no tempo, apenas pode tentar com todas as suas forças preservar o orgulho desta mulher.

 "Mas esta mulher - eu não sei se poderei descrever-lhe isto - irritava-me, inquietava-me, desde o momento em que viera a minha casa como simples visita. Excitava-me, pelo seu orgulho, a resistir-lhe; excitava - como direi? - excitava em minha defesa tudo quanto havia em mim de contido, de oculto e de mau."

Em 'Carta de uma Desconhecida', temos uma carta, como o título indica, de uma mulher ao homem que amou a vida inteira, mas que nunca lhe tinha contado toda a verdade: a paixão desde que foram vizinhos, os encontros posteriores, a vida que podiam ter tido em conjunto. Que não tiveram, por falta de reconhecimento. Por, apesar de tudo o que viveram, ela ter permanecido sempre uma "desconhecida".

Mas ainda há uma história extra, quase escondida no final desta compilação maravilhosa: 'A Colecção Invisível', sobre um homem cego que mantém intocável o seu álbum de gravuras, apesar de apenas o conseguir, agora, sentir. E a luta da sua família pela sobrevivência e pela vida do pai, para quem esta colecção (ainda que invisível, a vários níveis) é tudo.

Stefan Zweig tem uma capacidade única de nos intrigar com os monólogos longos e emocionados das suas personagens, como se fôssemos o seu interlocutor em pessoa. Falam-nos como desconhecidos que somos, mas com aquela familiaridade que se ganha quando estamos, por algum motivo, próximos (física ou intelectualmente) e ligados por algo que nenhum de nós vai esquecer.

"Eu... há apenas uma coisa que não compreendo: como... como a gente não morre também em semelhantes circunstâncias... que logo depois, a gente se levante na manhã seguinte, que se lave, que escove os dentes, que ponha uma gravata... que seja ainda possível viver quando se viveu o que eu vivi..."

Se em 'Amok' o que mais nos emociona é esta luta até à morte pela salvaguarda do orgulho de uma mulher, a tentativa de expiação e redenção de um momento errante na vida de um homem que não se pode apagar nem remediar... na segunda história é, sobretudo, a dor de uma mulher e a sua (também) luta constante, ao longo de uma vida, pela vida que nunca chegou a ter - a falta de reconhecimento do papel relevante do outro na sua vida e o seu papel muito pouco relevante na vida do outro.

Está sempre presente a ideia de ponto sem retorno, de impossibilidade de refazer a história. E nisso, como sempre, há dor, há amargura. Não há esperança, há apenas o que resta do que parte, do que vai embora e desaparece para sempre. Há solidão, há arrependimento. E há uma beleza enorme em toda esta emoção que nos traz as lágrimas aos olhos.

Apaixona-me, desde 'Coração Impaciente', em Zweig, esta sensibilidade única na forma de narrar as histórias, nas longas descrições, nos monólogos e diálogos que nos descreve. Não há escrita mais crua, e ao mesmo tempo mais bela, que nos toque tão fundo no coração. E isso só me dá ainda mais vontade de conhecer a sua obra completa. 

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