domingo, 6 de março de 2016

O Luto de Elias Gro - João Tordo

"Que o céu exista, mesmo que o nosso lugar seja o Inferno."
'O Luto de Elias Gro', João Tordo

As palavras são de Borges, mas descrevem na perfeição a essência do romance. escrita de João Tordo é feita de perdas, de descobertas, de buscas pela medida certa do amor. 'O Luto de Elias Gro' não é excepção, embora seja ainda mais interior, mais privado, do que qualquer um dos seus outros romances que já li. É um caminho que parece levar irrevogavelmente à decadência do ser humano, à perda de tudo, à desistência da vida, mas que ainda assim consegue encontrar-se com uma pequena luz de esperança.

O narrador anónimo muda-se, da sua vida quotidiana, para um farol abandonado numa pequena ilha esquecida no meio do mar. À medida que procura ultrapassar uma grande perda e começar de novo, conhece personagens muito características e que lhe vão mostrando a força necessária para sobreviver. Este seu luto prolonga-se e enfrenta caminhos de solidão e de dor, entrelaçados com a alegria que descobre em pessoas que também perderam tudo.

"Talvez valha a pena dizer-vos isto: creio que só na ilha soube verdadeiramente que a amara. O reverso de uma incomensurável perda é a consciência dessa perda. E a consciência chega através da dor. A dor nação costuma mentir; nesse sentido, é o que mais importa. Sem ela, passaríamos do sofrimento momentâneo ao esquecimento. No fundo, a dor é paz; um lugar intermédio onde finalmente entendemos que, por mais que se repitam os gestos hábeis de todos os dias, o que aconteceu nunca tornará, e todas as coisas - todas, sem excepção - se irão perder, uma de cada vez, devagarinho, sem que tenhamos tempo de as deter na ida ou de perguntar para onde vão."

Nunca é fácil escrever sobre os livros de João Tordo. Precisamos sempre de algum tempo para mastigar a leitura e entender bem a aventura narrativa que acabámos de viver. Uma história tão privada, tão focada numa personagem anónima tão densa e bem construída, merece este esforço de assimilação. E no final, o que fica é um cruelmente bonito romance de fuga ao passado que se transforma num reencontro da vontade de viver.

Entre as pessoas que conhece e mudam a sua vida está Cecilia, a filha de Elias Gro, o pastor da ilha. É uma criança mais inteligente do que a idade denuncia, sabe todos os ossos do corpo humano e, surpresa das surpresas, ensina ao nosso amigo narrador que, apesar de o mundo ser um local muitas vezes feio e de sofrimento, também tem uma certa beleza e alegria que fazem com que valha a pena continuar a existir.

Por entre os diários de Drosler, o escritor cuja casa foi engolida pelo mar, e pelas descrições que este faz de Elias Gro, percebemos porque o luto do narrador é partilhado pelo pastor. Há uma ilusão de esperança na reconstrução da casa de Drosler - que nunca passou disso mesmo, de uma ilusão - em recuperar este passado perdido, talvez até a menina que morreu quando chegou à ilha, talvez até a juventude de Elias e o seu cruzamento com o antigo faroleiro da ilha. Tal como a ilusão de que o álcool vai trazer A. de volta, e tudo o que com a sua partida se perdeu.

"Eu corria os dedos pelo teu cabelo frio e assistíamos à desfilada das estrelas (que se escondiam para logo tornarem a mostrar-se noutro lado, também elas procurando respirar no labirinto que é a noite); sem o sabermos, cuidávamos também de alguém que, dentro de ri, talvez se risse das nossas parvoíces porque, embora ainda não tivesse chegado, estava já de partida, e é essa a razão pela qual sonhamos com as coisas perdidas ou extraviadas de antemão, porque só existe uma maneira de as vivermos, que é vivê-las de olhos fechados e coração levado ao engano."

Nas conversas com Cecilia e Elias, nos diálogos com o médico imaginário, entre as transcrições das "História Universal da Infâmia" de Jorge Luis Borges que leva sempre consigo, ou na vida solitária que leva - primeiro no farol, depois perdido numa casa abandonada no meio do mato - , a personagem principal acaba por compreender a verdade que a trouxe até ali e que apenas o tempo consegue iluminar: que tem de aceitar o mundo tal como é, que a dor encontra sempre o seu fim algures no tempo. Que estamos aqui para sobreviver ao que nos faz sofrer, ao que vai embora, e ao facto de ficarmos sempre sós no mundo sempre que enfrentamos uma perda.

Fala por isso de passados, de amor, de morte, de esperanças - umas mais iludidas, outras mais realistas. É preciso descobrir esta realidade e a verdadeira possibilidade da vida. Há na ilha quem a encontre na fé, na religião - não é o caso dele, mas em momentos de medo não nos tornamos todos para o que desconhecemos e descremos?

É nas histórias dos que o rodeiam que o narrador nos vai mostrando a sua própria história, e é isso que mais me fascina nesta história, mais do que nas restantes, de Tordo: que a sua incapacidade de sobreviver ganhe força na incapacidade de os outros sobreviverem, como se esta o obrigasse a assumir as rédeas destas várias vidas e responsabilizar-se por uma fé na qual não sabe acreditas, mas que pode salvá-las de um destino infausto.

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