terça-feira, 1 de março de 2016

O Homem que Caminha - Jiro Taniguchi

Se alguém que leia este estaminé ainda não descobriu a paixão pelo mangá, fica a dica: Taniguchi é certamente a pessoa certa para nos apaixonar, a todos, pela banda desenhada japonesa, com o seu traço simples e a beleza das suas histórias contadas em imagens.

'O Homem que Caminha' é um conjunto de histórias, de caminhos, de passeios pelas redondezas de casa, pela cidade ou pelo campo. É também uma novela gráfica sobre a busca constante de algo mais que nos dê prazer, que nos encha as medidas, que nos entusiasme pela novidade, o perigo, a beleza da natureza ou da vida humana - ainda que o calor que sentimos em casa, na vida que construímos para nós, entre as pessoas que amamos, seja sempre aquilo para que queremos voltar no final destas caminhadas por aí.



Taniguchi não abusa do uso de diálogos, não exagera na cor ou no traço. Mantém a simplicidade que dele esperamos e a subtileza a que nos habituou nas suas histórias. Não precisa de falar para contar a vida deste homem, o seu dia-a-dia de passeios de escape à vida (que muitas vezes nos assoberba). Basta desenhar as várias perspectivas de cada passeio: o que ele vê, o que os outros dele vêem, as aventuras por que passa, mais ou menos felizes; os encontros que tem, os seus regressos a casa.

Ele nada em piscinas públicas sem autorização, parte as lentes dos óculos, enfrenta o dia seguinte à passagem de um furacão, descobre locais que desconhecia como um turista na sua própria cidade. De várias histórias, aos poucos, vamos sentindo uma correlação entre os passeios, uma presença cada vez maior do seu elemento de ligação - este homem, de quem não precisamos de conhecer mais do que a figura aparentemente séria, e que esconde nada mais nada menos que as suas peculiaridades enquanto ser humano.



Aos poucos, todos nos vamos identificando com as situações por que passa; todos vamos entendendo a sua necessidade de espairecer, de apanhar chuva no rosto, de conhecer sítios novos, de fazer coisas ilegais. E a (também, unicamente?) humana sensação de incompletude que nos leva a querer ser tudo ao mesmo tempo, a procurar viver tudo num único momento, a buscar sempre uma coisa que ainda não descobrimos e não temos a certeza de que existirá algures - é disso que trata a esperança, e é disso que alimentamos a nossa existência aqui.

Taniguchi faz-nos ver, mas, mais que isso, faz-nos sentir. E de que maneira! Muito Jiro, muito muito muito giro :3

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