domingo, 10 de janeiro de 2016

Um Longo Domingo de Noivado - Sébastien Japrisot

Senta-a na cadeira de rodas e declara-lhe que, a partir desse momento, são noivos, arderão no inferno se mentirem um ao outro, ela está de acordo, juram esperar e casar-se quando ele voltar da guerra.
‘Um Longo Domingo de Noivado’, Sébastien Japrisot

“Manech aime Mathilde. Mathilde aime Manech.” Se tivéssemos de resumir este ‘Um Longo Domingo de noivado” em poucas palavras, poderíamos usar apenas estas duas frases. “MMM”. Um amor que resiste à guerra, à dor, à memória, e que se apoia em esperanças que parecem infundadas, mas que encontram fundamento, quanto mais não seja, no fundo do coração. De uma trágica história de guerra, este “longo domingo” transforma-se numa incessante busca por respostas, pela verdade, mesmo que esta venha a ser ainda mais dolorosa do que a ignorância.

Em 1917, cinco soldados são condenados por automutilação (como forma de regressarem mais cedo a casa) em conselho de guerra e levados para uma trincheira chamada Bingo Crepúsculo. É o que Mathilde descobre quando um dos oficiais a convoca para contar parte desta história, que envolve o seu noivo, Manech (também chamado Bleuet), dado como morto. Agora a guerra já terminou e Mathilde quer compreender melhor o que aconteceu ao amor da sua vida, ainda que muitos a tomem como louca por viver presa a uma esperança que pode muito bem ser falsa.

A dor de não ter a certeza de que ele está morto, ou se por outro lado terá sido feito prisioneiro pelos inimigos, se terá ficado louco, amnésico, muito ferido ou até encontrado a paz e a felicidade num local distante, numa nova vida. A incoerência das provas que vai recebendo, a falta de descodificação das cartas que muitos dos envolvidos em Bingo Crepúsculo (e conhecidos destes) que enviam, até as várias pistas que recebe dos detectives que contrata… tudo parece estar muito distante da realidade, até as peças começarem a encaixar aos poucos.

“E depois, Mathilde é optimista por natureza. Ela diz a si mesma que se o fio a não levar de novo ao seu amante, tanto pior, não será grave, poderá sempre enforcar-se com ele.”

Mathilde vive tão distante de casa como Manech, embora lá esteja fisicamente, com o mesmo coxeio de sempre, a mesma necessidade de caminhar acompanhada ou em cadeira de rosas. É o que a guerra faz às pessoas - tanto às que vão (e não voltam), como às que ficam (e esperam eternamente pelo regresso das outras): rouba-lhes toda e qualquer vontade de viver. A algumas, dá até a vontade de vingar, assassinar, morrer pela pessoa que amam e que a guerra lhes roubou. 

Mas não a Mathilde. Mathilde quer a todo o custo saber o que aconteceu, mesmo que todos lhe digam que Manech está morto, que o seu longo noivado foi trágico e que ela, que ficou, tem de seguir com a sua vida. É optimista por natureza, lá está, e recusa-se a crer em pistas tão falsas sobre a sua morte como aquelas que segue para acreditar na sua sobrevivência.

Japrisot é uma descoberta, muito graças à Cash Converters que permitiu esta aquisição por um valor muito baixo. Transforma a dor em esperança, dá ao leitor as bases para construir seu próprio entendimento das pistas que Mathilde vai recebendo, permite-nos acompanhar o seu estado emocional em todas as etapas. 

Conhecemo-la quando era jovem, a sua relação com Manech, os seus sonhos estranhos, a vida com os tios e a interacção com as outras mulheres que deixaram os seus homens na guerra. E ao longo desta viagem, também ela longa e trágica, como o noivado, é impossível não nos envolvermos também na evolução das suas emoções. Mistura uma busca quase policial com uma apaixonada tentativa de encontrar a paz, de uma forma ou de outra. E fá-lo com uma enorme sensibilidade.

Se o filme altera alguns pormenores essenciais do livro que lhe dão uma dimensão ainda mais poderosa e dramática, no entanto, não o torna menos credível, sincero ou tragicamente belo. E a esperança está lá, como em todas as páginas do livro, em cada lágrima de Mathilde, em cada rodar da sua cadeira de rodas, em cada carta que recebe, em cada memória que todos têm de Manech.

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