domingo, 17 de janeiro de 2016

Aventuras de João Sem Medo - José Gomes Ferreira

É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir
‘Aventuras de João Sem Medo’, José Gomes Ferreira

Quem não andar espantado de existir, ficá-lo-á com este livro. ‘As Aventuras de João Sem Medo” é um clássico para jovens que gostam de pensar e para adultos que não perderam o espírito aventureiro. Faz parte do Plano Nacional de Leitura e inspira-se nas dimensões poética e antifascista do seu criador, que em 1963 compilou em romance estas 15 histórias lançadas em forma de panfleto em 1933.

João Sem Medo decide partir da sua dramática terra, Chora-Que-Logo-Bebes, onde todas as pessoas choram de manhã à noite, de alegria ou felicidade, saltar o Muro e enfrentar a magia da Floresta Branca em busca de novas aventuras. Conhece fadas, gigantes, bruxas, animais falantes, príncipes estranhos e toda uma panóplia de seres sobrenaturais. Tem de abdicar de partes do seu corpo, transforma-se em árvore, interpela o autor, conhece o seu “eu” medroso e entra nos contos fantásticos que conhece de leituras, desde que parte até tentar descobrir o caminho de volta a casa.

Podemos lê-los isoladamente, que o efeito mágico é semelhante. Quando, em 1963, José Gomes Ferreira reuniu em volume único estes 15 capítulos, mal tocou na história original, apenas aqui e ali, para a tornar mais coesa, sem acrescentar novas aventuras a este jovem aventureiro. Porque as histórias, a magia, a intenção - já lá estava tudo, intrínseco a cada episódio. Até mesmo a crítica fabulada ao regime salazarista que, tanto em 33 como em 63, oprimia o país.

Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro…

Está na forma brava como João se assume Sem Medo, como luta contra a escolha óbvia do caminho da felicidade (que implicava o corte da sua cabeça e a ausência de livre pensamento), como questiona tudo o que vê e lhe contam. É um herói anti-herói, quase, porque foge à fantasia do mundo que lhe é apresentado, às narrativas óbvias dos contos de fadas, mesmo à ideia de que o herói, por o ser, tem sempre de vencer no final - tem mesmo de apelar ao autor para o salvar das garras de um gigante vingador e malvado. E assim escapa às garras da narratividade romanesca, seja ela fantasiosa ou romanceada, e da própria censura.

Verdadeiramente desmistificadoras, com um cunho surrealista muito forte, as ‘Aventuras de João Sem Medo’ apresentam-nos como personagem principal uma espécie de jovem burguês, como descreve o próprio autor, que se assume, a si mesmo, sem medo. E essa assunção ajuda-o a manter-se corajoso, destemido, optimista e aventureiro até ao fim, mesmo que a sua aventura por terras estrangeiras, mundos mágicos e caminhos de infelicidade apenas faça mudar a perspectiva com que encara a vida.

E fiel, ao meu lema de cronista imparcial, propunha-me descrever a derrota de João Sem Medo, embora com o coração destruído, quando se deu o lance dramático de ouvi-lo increpar-me - bracinhos hesitantes a saírem do outro lado da tinta das palavras… Apelo espontâneo, com que não contava - juro! - vindo de lá das profundas do subconsciente da liberdade com que o criei e convenci a saltar o Muro, dotado da mais nobre virtude de que um ser vivente se pode orgulhar: a coragem.

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