domingo, 20 de dezembro de 2015

Maus: A história de um sobrevivente - Art Spiegelman

Contar a história do pai, sobrevivente ao Holocausto, em banda desenhada, foi o que Art Spiegelman se desafiou a fazer para tentar compreender melhor o que os seus pais viveram. O resultado é uma novela gráfica impressionante, com um toque humorístico muito próprio e um sentimento generalizado de culpa, mágoa e uma vida que se perdeu nos campos de concentração.
 
'Maus' porque todos os judeus são desenhados como "ratos" nesta história - e é a história deles que Spiegelman quer contar e honrar. Os nazis são gatos, os polacos porcos e os americanos cães. Art "entrevista" o pai, Vladek, sobre a sua história antes da guerra, quando os judeus começaram a ser perseguidos, quando vai para Auschwitz e passa por outros campos de trabalho, até às próprias entrevistas que lhe faz no presente, já depois da morte da mãe.

Aos poucos, vamo-nos percebendo de que a personalidade de Vladek é uma construção histórica, mais do que um defeito de personalidade. Enquanto Art procura entendê-lo e às suas manias, vai conhecendo a origem da sua dor, os amigos desaparecidos, a separação de Anja, os trabalhos forçados, o medo da morte. Art é posterior a tudo isso, por isso sente uma culpa que não entende: por ser o filho que não precisou de sobreviver; por não ter vivido o mesmo que os pais.
 
E fá-lo de forma brilhante, em desenhos muito crus, separados por capítulos muito interessantes em si mesmos. Mostra o pai na actualidade, imagina-o na sua juventude, recria fotografias, interpreta as imagens que as palavras do pai lhe oferecem e transforma tudo isto na sua própria visão da história.
 
A forma quase Orwelliana como Spiegelman apresenta as personagens e a o ligeiro humor que consegue transmitir com a personalidade estranha do pai são como que a sua maneira de aligeirar a dor e a crueza de toda a história que conta. Não há propriamente cortes no relato, nem outras formas de o aligeirar. É o que aconteceu, ponto por ponto, na visão de Vladek - tudo o que viveu, aqui imortalizado pelo filho e para a história recordar.
 
'Maus' é um relato muito real e realista da vida durante a II Guerra Mundial, o que justifica inteiramente a sua vitória nos prémios Pulitzer. O que prova também que a banda desenhada, para além de poder assumir uma dimensão muito diferente dos desenhos e bonecos para crianças, pode também ser tomada como um meio expressivo, emocionante e directo de relato jornalístico.

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