sábado, 14 de novembro de 2015

Coração Impaciente - Stefan Zweig

«Se pretendêssemos (sobre isto não tenho dúvidas) imaginar toda a desventura que nos cerca e cobre a terra, fugiria toda a possibilidade de sono e todo o riso nos expiraria na boca. Mas nunca a dor imaginária, fantasiada, nos incomoda e aniquila assim: só o que a alma vê e sente tem o poder de nos excitar e comover profundamente.»
'Coração Impaciente', Stefan Zweig

O meu primeiro contacto com Stefan Zweig foi este 'Coração Impaciente', uma verdadeira história de culpa e piedade - daí que o título em inglês, 'Beware of Pity', se adeque ainda melhor ao que o seu interior conta.

Hofmiller é um oficial de cavalaria austro-húngaro que, ao passar por uma pequena cidade da fronteira húngara, é convidado para uma festa em casa de um proprietário local. Fica desde logo fascinado com o castelo, o lorde Kekesfalva e a simpatia de todos, mas ao convidar a filha do anfitrião para dançar apercebe-se de que uma doença a deixou inválida. É este acontecimento que, aos poucos, vai gerar nela uma paixão intensa e nele uma piedade enorme, e destruir as suas vidas para sempre.
 
No decorrer da narrativa esquecemo-nos, praticamente, que este oficial narra a sua aventura trágica ao narrador inicial, pois o relato torna-se de tal forma sentido, pessoal e intenso, que é a sua história que nos faz passar cada página com um grande sentimento de dor, falta de esperança e vontade de saber o desfecho (ainda que trágico) da obra. Porque o sabemos trágico quase desde o início - desde o momento em que Hoffmiller afirma ser este encontro com Edith, a jovem paraplégica, frágil e temperamental.

«Compaixão... bonito! Mas há duas espécies de compaixão. Uma, feita de fraqueza, não passa de impaciência do coração, ansioso por se libertar, rapidamente, de um penoso enternecimento, em face da dor alheia. E existe a outra, a única que conta: a compaixão que não é sentimental mas activa, compaixão que sabe o que quer e está resolvida a suportar com paciência e a prestar ajuda até ao máximo do esforço, e ainda para além, muito para além, das possibilidades humanas. Somente quando temos coragem para ir até ao fim, até esvaziar o cálice da amargura, só quando possuímos uma grande paciência, só então podemos ajudar as outras criaturas. Só então, e à custa do próprio sacrifício.»

O seu caminho e o culminar da história são, por isso, inevitáveis, ainda que não saibamos logo a dimensão desta inevitabilidade. Navegamos pela sua simpatia e atenção por Edith, pelo seu apreço pelo pai Kekesfalva, pelas histórias do passado da família que o médico, Condor, lhe vai contando. E, por fim, pela sua compaixão (do tipo mais perigoso), pela sua culpa da esperança, pelas ilusões que sem intenção, mas inevitavelmente, viu criadas à sua volta.

Apesar da culpa e da compaixão contínua existe de certa forma, também, uma certa ingenuidade, infantilidade, até, na forma de lidar com toda esta situação e os sujeitos que a compõem. Hoffmiller age sempre de forma instintiva, ainda que pareça fazê-lo ponderando bem todas as opções e consequências. Foge às responsabilidades, volta para trás, sente culpa, teme as reacções dos colegas e da sociedade... e no final só lhe resta continuar a sentir essa culpa, de forma permanente, desde que a consciência e a memória continuem vivas para o relembrar do duro passado.
 
Depois de ler uma entrevista com Wes Anderson sobre o imaginário de Stefan Zweig e a forma permanente como a sua leitura gera dúvidas acerca da humanidade, sobre nós próprios, e incentiva a criatividade de uma maneira muito sentida... fiquei ainda mais fascinada por esta personalidade e não resisti a comprar uma edição antiga muito bonita com o 'Amok' e outras histórias do autor. Estou em pulgas para me deixar deliciar por ela!

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