domingo, 25 de outubro de 2015

Charlie e a Fábrica de Chocolate - Roald Dahl


"Não era fantástico se o Charlie abrisse uma tablete de chocolate e encontrasse lá dentro um Bilhete Dourado a brilhar?!"
Charlie e a Fábrica de Chocolate, Roald Dahl

Há poucos livros "para crianças" tão perfeitos como este 'Charlie e a Fábrica de Chocolate. Muita imaginação, uma aventura alucinante e um mundo totalmente mágico... e ao mesmo tempo uma crítica social tão voraz, uma história tão completa!

Charlie Pipa vive com a família numa pequena casa para ele e os pais, os avós paternos e os avós maternos. Todos vivem à custa de um trabalho incerto do pai Pipa e em condições de extrema pobreza. Ainda assim, no aniversário de Charlie, poupam para lhe oferecer uma tablete de chocolate da Fábrica de Willy Wonka, mesmo ao lado da casa deles, e que o menino adora. Quando Wonka distribui 5 bilhetes dourados pelas tabletes para possibilitar às crianças que as encontrarem uma visita ao maravilhoso mundo da fábrica, Charlie só quer ser um dos sortudos.

Não gosto da categorização "histórias para crianças", embora tenha começado por fazer esta referência. São histórias fáceis de ler e de seguir, que de certa forma traduzem uma moral, o bem vs o mal, e dão a conhecer um mundo fantástico que não encontramos na realidade. Sempre vi Roald Dahl como um dos grandes criadores de histórias - de sempre! - e por isso excelente para mostrar pedaços da realidade às crianças, com um humor muito próprio, uma imaginação sem limites e uma capacidade criativa completamente invejável.

Mas o que mais me fascina na sua escrita mágica é a conjugação desta magia e desta aventura com uma espécie de neorealismo disfarçado que insere delicadamente em volta da história. Em Charlie, que vive no seio de uma família pobre e tem um coração bom, é sensato e até com mais maturidade do que a maioria das crianças da sua idade (provavelmente porque as más condições de vida lhe exigem um crescimento mais rápido); e também no contraste com as outras crianças que visitam a fábrica.

Entre elas temos um miúdo que só gosta de ver TV, uma miúda que masca pastilha elástica a toda a hora, um miúdo gordo que só gosta de comer doces e uma miúda mimada a quem os pais fazem as vontades todas. Há uma crítica muito forte neste cliché, nesta categorização das crianças em situações muito específicas de uma época histórica - pós-moderna, diria mesmo - e sobretudo na educação que os pais estão a dar aos filhos. Isto não só na sua complacência com as atitudes que eles querem tomar, sem lhes oferecerem a visão contrária, correcta e adulta das coisas; e até por as incentivarem, na maioria das vezes, por quererem corresponder a todos os caprichos dos filhos.

(daí que todos vão pelo cano abaixo, ou que pelo menos todos sejam prejudicados pelas atitudes imprudentes que os filhos tomam na fábrica de Wonka)

Charlie é o único que escapa a esta exagerada "criancice", que tem a sensatez de esperar, de ser fiel aos seus princípios, e ao mesmo tempo de se deixar fascinar por este mundo desconhecido, que parece só existir em sonhos - também a nós o parece. E só temos a agradecer a Roald Dahl por nos ter deixado sonhar tanto com esta sua obra maravilhosa.

Nota: o filme de Tim Burton vinha-me sempre à memória nas descrições de Willy Wonka (aqui uma personagem menos complexa e até menos explorada), nas personagens das crianças, na casa da família de Charlie, do elevador... e dos Umpa-Lumpas! Que seres de outro mundo!


"ELES... LIAM... e LIAM... e LIAM
E LIAM e LIAM, e não desistiam
De LER ainda mais e tornar a LER
Livros e livros até ao anoitecer!
Livros não faltavam para os entusiasmar,
No quarto, na cozinha, na sala de jantar,
E outro apareciam debaixo da cama,
Para os fazer sonhar já de pijama!
Era histórias, aventuras e lendas colossais
Com tigres, dragões e outros animais
E ilhas distantes e terras do fim do mundo,
Para onde se ia em menos de um segundo.
E navios à vela, tubarões e baleias
E marinheiros a ouvir o canto das sereias,
Reis, bruxas más e piratas malvados
E canibais a cozinhar refogados.
(...)
Ah, que livros tão belos eles conheciam,
Os meninos que em outros tempos viviam!
Por isso, lhes pedimos com devoção
Que lancem pela janela a vossa televisão,
Para no seu lugar passarem a ter
Uma estante com livros que se possam ler.
(...)
E algo de novo irá acontecer:
Eles descobrem que gostam de ler
E haverá tanto prazer e alegria
Nos seus corações, dia após dia,
Que os meninos se vão espantar
Daquele monstro poderem gostar."

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