quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Cônsul Honorário - Graham Greene

"O doutor Plarr perguntava a si mesmo se Fortnum o chamara para o aconselhar sobre um problema menos solúvel do que a dor de barriga da mulher. E bebeu para preencher o que lhe parecia ser um silêncio embaraçoso."
'O Cônsul Honorário', Graham Greene

Greene já me conquistara com 'O Fim da Aventura' - e foi, aliás, pelo que esta obra me ofereceu que uma edição novinha em folha, antiga e muito bonita d'O Cônsul Honorário' não me escapou nos alfarrabistas da Feira do Livro. Nem sei porque demorei tanto tempo a reflectir e a querer escrever sobre ele, depois de o ter lido quase de uma assentada. Mas tinha de de escrever, de uma forma ou de outra, pela experiência que é conhecer as histórias e as personagens de Greene.

Em 1970, Eduardo Plarr é um jovem médico de ascendência inglesa que vive numa pequena cidade argentina e estabelece relações com a comunidade britânica que ali reside - da qual faz parte o cônsul honorário, Charley Fortnum. De forma quase acidental, envolve-se com a mulher deste e deixa-se envolver num sequestro errado, que pode ser fatal para os dois homens: o que acompanhamos em toda a história e o que lhe dá nome.

São duas das muitas personagens interessantes que Greene descreve e cujo potencial é totalmente aproveitado na obra. Plarr é um homem jovem, determinado, científico, mesmo na forma como lida com Clara (a mulher do cônsul), as outras amantes e a sua vida quotidiana. Por seu lado, a Fortnum é sempre associado o estatuto que a posição de cônsul "honorário" lhe oferece, de uma figura menor da política local e do seu país, de um cargo sem qualquer relevância em termos práticos.

E é por isso que o seu sequestro não tem qualquer importância mediática, nem mesmo quando o próprio Plarr procura a anulação de toda esta situação - o que pode até ser visto como uma crítica do autor ao mediatismo que hoje se vive na vida política. Apesar disso, Plarr esforça-se, por se sentir talvez duplamente culpado: pelo filho que Clara carrega e pela sua ligação a Leon, o 'chefe' dos sequestradores.

"Talvez não pudesse falar livremente há muito tempo: talvez fosse erra a única maneira de desabafar: com um homem que ia morrer e que nunca mais recordaria as suas palavras, como um padre no confessionário."

Leon origina alguns dos melhores diálogos da história, como ex-padre casado, assassino e sequestrador que, também ele, procura a redenção por tudo o que fez ou deixou de fazer. São conversas e grandes filosofias que roçam a religião, o amor, a vida e a morte, e que nos fazem passar por todo o desespero, a ingenuidade do cônsul, a sensibilidade insensível de Plarr e a vontade comum de que tudo tivesse corrido de outra forma.

Da riqueza das personagens à intensidade da escrita, aos diálogos pensados, às longas descrições que transformam as características de cada personagem num quadro da sua personalidade, Greene voltou a conquistar-me - e de forma permanente. Não sei se resisto a comprar mais livros dele a bons preços, com capas bonitas e histórias fascinantes.

"Sei que você é frio, Ted. Já lhe chamei isso muitas vezes. Para si sou um sentimental. Mas, aqui deitado, tenho meditado em muitas coisas... O inferno do tempo que preciso de encher."

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