terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Vale da Paixão - Lídia Jorge

"Então como era possível que se pudesse continuar, quando se percebia que não iria haver mais nenhuma noite? - Só dispúnhamos de uma única, aquela noite de chuva, e termos a certeza de que estávamos a correr dentro dela, sem a podermos repetir, impedia-nos de a viver. Mas esta noite está rente a essa noite, e ambas são contíguas como se fossem só uma, fechadas entre o sol-posto e o amanhecer- A quem interessa o longo dia que ficou de permeio?"
'O Vale da Paixão', Lídia Jorge

Desconhecer o trabalho de Lídia Jorge fez-me reflectir sobre a enormidade de autores e de literatura portuguesa que ainda tenho para conhecer. Estive para me cruzar com ela no café, mas nunca calhou. Calhou antes cruzar-me com a sua escrita neste 'O Vale da Paixão' e apaixonar-me pela mágoa, pela apatia, pela inevitabilidade das coisas. Do alto da casa de Valmares para a superfície da Terra, onde tudo é sentido com mais intensidade.

A ausência de sinopse parece enunciar a ambiguidade desta história da família Dias, nas suas contradições e desventuras, nas suas personalidades divergentes, na acção escassa que se transforma numa narração muito própria, reflexiva e demorada. Francisco Dias, o patriarca, espera que os filhos emigrantes regressem a casa e se juntem a si. Todos, menos Walter, que não é bem-vindo em Valmares, por ser um "trotamundos" e ter engravidado Maria Ema e fugido de seguida, 'obrigando-a' a casar com o irmão Custódio.



Bom, podíamos resumir cruamente a estes factos a família que Lídia Jorge nos dá a conhecer. Mas é tão mais que isto. E tudo se concentra na filha de Walter - a criança, a mulher que acompanhamos, que cresce, sem lhe darmos outro nome que não este de filha, ou de sobrinha, de Walter. Ela narra, de forma estranha, alternando entre a primeira e a terceira pessoa, a sua infância sem o pai, apenas com a memória que dele tinham os objectos que lhe deixou, as histórias que lhe contavam. Ela narra, escreve a sua história, o que dizem dele, o que sente por ele, o que quer dele, para mais tarde lhe poder mostrar. Ela está sempre presente, mesmo quando ausente da narração - o que ouvimos é a sua voz, despersonalizada, a contar a vida em que não sabe muito bem que personagem interpreta.

"Nos sonhos eu nunca morria, ninguém da família morria, apenas nos separávamos, nos sonhos. Primeiro separávamo-nos uns dos outros, depois de nós mesmos, dos nossos membros, nossos ventres, nossas cabeças, nossas mãos, nossos dedos. (...) Ser matéria dividida e lembrar-me de quando era pessoa."

O texto é corrido, andado para trás e para a frente no tempo, desenrolando-se por vários anos, com a casa de Faro em pano de fundo e um país que, também ele, vai atravessando várias fases ao longo do século XX. As memórias ficam, no entanto. A história simples é complementada com uma escrita muito reflexiva, pesada, bem composta e consistente. Apesar da acção parecer escassa, nem por isso sentimos que o tempo passe mais lentamente. Vamos lendo e partilhando a mágoa da filha de Walter.

Ela não tem nome, não sabe quem é, vive um dia de cada vez. Agarra-se ao passado, e quando começa a crescer e a perdê-lo, agarra-se a desconhecidos, a apagar esse passado, a afastar-se de tudo e todos que a arrastam para esse local sombrio - como as memórias que a manta de Walter desperta nos Dias. Fixa-se na arte do pai, nos pássaros que desenha, nos motivos das coisas que não têm motivo. E depois Lídia Jorge oferece-nos momentos belos, como a noite em que Walter visita a filha no quarto - como se nunca pudessem estar só os dois a conversar - ou o quase-suicídio de Maria Ema, que nos levam de volta para esse mundo de sonhos e de uma felicidade ilusória.

"Foi Walter quem a trouxe de volta, quem lhe compôs o casaco, quem a introduziu no carro, quem a retirou do abismo. Daquele abismo. Voltávamos agora de lugares trocados. Diante de nós, ele passava-lhe a mão pelo cabelo, segurava-lhe a mão nas rectas, levava a mão dela sob a dele, na direcção das mudanças. Afagava-a diante de testemunhas. Como se as costas dos bancos onde os dois se sentavam formassem um biombo que os escondia do mundo. O mundo que se sentava atrás. O mundo mudo."

Se Francisco Dias espera eternamente que os filhos voltem - e o único que volta sempre é Walter, aquele que ele renega -, não é uma espécie de ironia da vida? Que Walter esteja em todo o lado, em todas as coisas, na mente de todos, ainda que seja o único que não se sabe por onde anda e o que anda a fazer? Todas estas questões nos ficam na cabeça, enquanto a sua filha-sobrinha tem de ir aprendendo a deixar para trás este bocado de si que não conhece. O que sobra? Uma história maravilhosamente contada e sentida que certamente não podemos ignorar ao enfrentar o nosso dia-a-dia.

"O silêncio dizia que o céu seria assim. Um grande espaço sem nada, onde ninguém teria recordação de nada, onde não haveria ninguém para se lembrar de nada. Nada existiria no céu. Nem desejo, nem dor, nem lembrança de qualquer afeição. O céu seria assim. Os regatos congelados, as nuvens ausentes, assemelhando-se tudo a nada. Seria nada o céu. Que bom o céu ser um espaço aniquilado, o trabalho do homem dispensável, o amor em estado puro, parado. Isso seria o céu. Aqui na terra, ainda não. Ainda nos movíamos como animais, ainda traçávamos estradas, ainda tudo estava em movimento, mais que não fosse para tombarmos e então termos existido antes, depois termos existido muito antes, e por fim, já nem termos existido. Sim, assim seria o céu."

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