segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Ano Sabático - João Tordo

"Percebeu também que lhe faltava alguma coisa e que essa falta jamais seria colmatada com uma carreira. Percebeu que sempre lhe faltaria alguma coisa; que era incompleto, insuficiente para si mesmo, e que, na verdade, tinha pavor de procurar essa coisa, uma vez que a procura corresponderia ao pior de todos os horrores."
'O Ano Sabático', João Tordo

João Tordo tem o poder de nos horrorizar pela escrita, de nos fazer questionar tudo, sobretudo o que conhecemos e tomamos como garantido, através das suas personagens - sempre incompletas, sempre em busca de algo. É a terceira vez que me assombra, que me deixa com medo de que as minhas palavras não sejam suficientes para fazer justiça à grandiosidade da sua escrita. E não o são.

Hugo, contrabaixista que toca em clubes de jazz, decide voltar à cidade natal, Lisboa, e tirar um 'ano sabático' da sua vida desregrada em Montreal. A busca de alguma paz e equilíbrio transforma-se num beco sem saída, quando assiste ao concerto de um pianista recentemente famoso, Luís Stockman, que toca uma composição que ele próprio anda a magicar há já alguns anos. Não bastando esta coincidência, Hugo começa a ser confundido com o pianista e a questionar a sua identidade, enquanto procura descortinar o mistério da sua existência e da do seu aparente gémeo. Também Stockman o tentará, mais tarde, quando o narrador do romance junta as pontas soltas e cria o seu próprio sentido para esta história.



"Nunca se beijaram. Depois, a passagem do tempo ditou que a ocasião nunca se depararia. Hugo tornou-se distante, melancólico, afectado por uma vida que não abarcava a possibilidade do amor; Catherine, vendo-o desmoronar-se, podia apenas esperar que ele aparecesse no atelier, muito raramente, quando o contrabaixo sofresse um revés de grande dimensão."

Apesar das insinuações misteriosas que vão surgindo, começa sempre tudo bem, tudo certo. Um homem que bebe demais e que ainda não conseguiu passar de instrumentista a verdadeiro músico, e que vai para junto da família para tentar encontrar o seu lugar. Tem inclusivamente algumas memórias felizes, com o sobrinho Mateus e a empregada, Dulcineia - mas até estas, mais tarde, se provam falsas ou funestas. Não há paz nenhuma nela; nada está certo, afinal. Ele está, constantemente, “louco de solidão” - e a busca do equilíbrio só o leva a conhecer um lado de si ainda mais desequilibrado: o que já não sabe, sequer, quem é e o que faz ali.

O tempo e o espaço misturam-se até, por vezes, enunciando esta aura de mistério que circunda toda a história. É confuso, é uma dor constante, uma mágoa constante, vermos Hugo a tentar descortinar se aquele homem é real, se lhe roubou a composição, se será o seu gémeo que morreu à nascença, de uma gestação em que apenas ele e a irmã Júlia sobreviveram. É este momento inicial que mais o assombra: a possibilidade de Stockman ser o verdadeiro sobrevivente, o que conseguiu ter sucesso e ser alguém na vida; ou de ele ser o sobrevivente e dever ter sido o que morreu quando nasceu.

Faz lembrar a ligação entre as gémeas de 'A Desumanização': o bebé que sobrevive, mas que está mais morto que o que morreu. É uma história que serve de base a todo o romance aqui. Ou como se ambos fossem o bebé que sobreviveu e que ficou mais morto que o que morreu. Ou como se nenhum deles tivesse sobrevivido e esta fosse a história da sua vida caso tivessem: a história de um bebé que devia estar morto, cuja vida só traria dor e amargura.

Nada faz sentido, nem para eles, nem para nós. Tudo parece absolutamente estranho e inverosímil, de tal maneira que não pode ser real, e ao mesmo tempo é tão real que lemos em busca de uma compreensão e terminamos como começámos, sem compreender nada. Com uma história que nos enche as medidas, e que ainda assim não nos preenche. Não pode preencher, ou perderia toda a magia. Porque o fim é na verdade o início de tudo – continuamos sem saber quem são estes dois homens, em tanto iguais, e em tanto diferentes, cujo conhecimento e apercebimento um do outro transforma as suas vidas de uma maneira gigante. Já eram homens infelizes, mas sabiam que eram homens, quem eram, tinham mais ou menos consciência do lugar que ocupavam no mundo. E deixaram de o saber.

"Em certa medida, sobrevivera a si mesmo. Se eram idênticos, pensava agora, com certo horror, enquanto a mãe acendia um cigarro, então nenhum morrera e nenhum vivera: na verdade, metade de si morrera à nascença e a outra metade sobrevivera.
Era incompleto, ocorreu-lhe. Em si próprio, insuficiente."

O narrador, descobrimos mais tarde, é um amigo de Stockman que nos conta a sua própria queda, na sequência da queda de Hugo, ao conhecer a história deste último e a suposta ligação entre eles. Tal como em outras obras de Tordo, a amizade é retratada como a única ligação à terra, à consciência, que estas personagens 'perdidas' têm - a única coisa consistente nas suas vidas, ainda que nem sempre seja suficiente para sobreviverem. 

Sentimos uma presença muito forte do autor nos romances que escreve, como se o João Tordo, o romancista, fosse sempre o narrador, o amigo, aquele que escreve sobre pessoas que vai conhecendo - e que, inclusivamente, se conhecem entre si. Como a Elsa também tem uma história n'O Bom Inverno' e Saldaña Paris é a personagem central de 'Biografia Involuntária dos Amantes', ou mesmo Stockman, que tem um papel fundamental neste último (e nos diz que este final d'O Ano Sabático' pode ser, também ele, uma criação do narrador desconhecedor da realidade). Estes elos de ligação, que só os mais atentos à sua obra notarão, são como pistas das suas vidas, como personagens que ele tem na cabeça e às quais vai dando espaço em outros romances, para poder contar as suas histórias. Acho isso maravilhoso.

Deste 'O Ano Sabático', fica a amargura de andarmos sempre à procura de alguma coisa que nos falta, de uma outra metade, seja em que sentido for: uma pessoa, uma melodia completa, um amor, algo a que nos dedicarmos. Algo que dê sentido à vida, quando tudo parece tão negro, tão doloroso; quando estamos tão perdidos. “Talvez estejamos mortos desde sempre”, escreve a certa altura. E aí percebemos que não importa a verdade, o sentido, que a viagem é tão mais rica se não tiver um final definido. Que estamos perante um dos maiores romancistas contemporâneos do nosso país, que a cada livro nos oferece um bocado da sua alma. 

Imagino-o sempre a ele, o escritor, o contrabaixista, o professor, 40 anos, um ar jovial, de óculos, simpático, mas extremamente triste, melancólico. Espero que, tendo tudo isto dentro de si, consiga encontrar o outro lado da moeda, o lado feliz, o lado da vida, e que deixe o lado negro, da morte, da dor, da tristeza, para as suas personagens românticas. 

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