domingo, 26 de outubro de 2014

O Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

"Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."
O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

Saudades de pensar em Fernando Pessoa e nos seus heterónimos; nas suas dicotomias, nos dramas da fragmentação da personalidade, nos seus poemas sentidos. Alberto Caeiro não era o meu favorito - adorava a pujança de Álvaro de Campos e as 'dores' do ortónimo, mas Caeiro ficava à frente do estoicismo de Ricardo Reis que nunca me fascinou senão pela sempre constante, em Pessoa, impossibilidade de escapar às circunstâncias da vida.

Este 'O Guardador de Rebanhos' estava guardadinho na minha estante há muitos anos, a pedir discretamente para ser lido num belo dia de outono. A simplicidade da escrita, a facilidade com que se lê, contrasta com esta primeira pessoa complexa, que não quer pensar, que não quer compreender nada, só viver, e que acaba por pensar tudo como se fosse impossível escapar a esta mediação do pensamento.

É uma espécie de 'dor de pensar', um sofrimento com a impossibilidade de não pensar e intelectualizar tudo. Não é a escrita, a poesia, a transformação do que se sente em palavras, em interpretações subjectivas... não é tudo isso pensar? Não é tudo o que ele não queria? E no entanto é tudo tão simples, tão belo, quase puro e inocente, como se de facto entrássemos no seu coração e pudéssemos estar em cada batimento, em cada olhar puro sobre a Natureza, em cada sentimento.

Intemporal, este homem. E aplica-se sempre tão bem, de uma maneira ou de outra, ao que sentimos cá dentro.

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