domingo, 7 de setembro de 2014

Vagão J - Vergílio Ferreira

"Quem vem pôr um fim à história dos Borralhos? Ela não acabou ainda e não se sabe já onde foi que começou. Talvez, António Borralho, tu a escrevas um dia. Tu ao menos descobriste que tinhas inteligência, tu sabes o que sois, o que sempre tendes sido."
'Vagão J', Vergílio Ferreira

Um dos livros de Vergílio Ferreira censurados durante o Estado Novo, sobretudo pela exposição da miséria social e da categorização da sociedade. Gosto que esta edição, para além de ser a original, contenha o relatório de censura e nos transporte de forma tão vívida, através de uma escrita limpa, simples e realista, para a realidade desta família pobre. São os Borralhos, sabe-se lá porquê.

Têm fama de ser ladrões, por isso aproveitam-se disso. Vivem todos na mesma casa, dormem todos juntos, nascem mais Borralhos a toda a hora, roubam, aproveitam-se dos poderosos, andam à porrada e só uma das crianças vai à escola. São uma família que conta os tostões para sobreviver, que nega aos filhos o mínimo prazer, que quer até que o patriarca morra para ser menos um fardo para a família empobrecida. Não há limites para a indecência, para a imoralidade. E através deste retrato vai mostrando como a sociedade portuguesa da época vivia sem condições para o fazer, sem tornar os Borralhos coitadinhos, porque são ladrões e assassinos e animais.


Vergílio Ferreira é um autor tão complexo que lê-lo num livro é sempre diferente de lê-lo no anterior. Este marca a sua fase neo-realista, ainda antes de entrar pelos caminhos difíceis do existencialismo. A linguagem é crua, directa, seca, até- Usa o calão, escreve como se estivesse a expor os seus pensamentos mais primários - não usa filtros. Diz as coisas mais óbvias e, ainda que esconda uma intenção por baixo - a descrição desta desgraça social, destas misérias, da pobreza -, não a oferece de mão beijada. Temos de interpretar à nossa maneira para podermos oferecer às palavras essa conotação.

"Manuel Borralho pertencia aos Borralhos, à família dos Borralhos, que eram ladrões, ladrõezitos reles, se multiplicavam como cogumelos, provinham das classes as mais diversas, de senhores da terra que tiveram filhos das Borralhos de outros tempos, dos bêbados que namoravam a sério e também tinham filhos delas e muitos mais de outras mulheres que contribuíam também para a multiplicação dos Borralhos, ladrõezitos reles, desordeiros, raça acanalhada de esterco."

A questão das hierarquias também é interessante: a relação entre os pobres que não têm poder e os poderosos que, só por serem ricos, conseguem dominar a sociedade. Apesar de não entrar em reflexões, expondo apenas o que vê, o que ouve, o que sente (porque todos os seus romances têm algo de autobiográfico), o autor leva-nos para estas questões através da sua escrita seguida, fluida, rural, quase imprópria - da qual bebem, parece-me, autores como José Luís Peixoto.

E depois temos António Borralho. É a excepção da família, mas nem por isso o seu orgulho, porque de pessoas tão pobres, violentas e sem princípios, como valorizar alguém que foge à regra? É o protagonista de 'Manhã Submersa', que aqui começa a ir à escola, que é protegido pela D. Estefânia e incentivado a ir para o Seminário, mesmo não sabendo bem se tem ou não vocação. Acaba por ser paralelo ao outro romance, porque nos conta inclusivamente o seu final, mas de forma muito mais superficial, descritiva, e sem qualquer reflexão por parte da personagem sobre as suas intenções, os seus pensamentos, a dor de estar longe da família e da clausura do Seminário. É curiosa esta diferenciação de posicionamento de Vergílio Ferreira e a forma muito mais íntima como conhecemos este pequeno Borralho na sua outra obra.

'Vagão J', porque é a categoria a que pertencem os Borralhos - é a carruagem dos comboios onde vão os animais e tudo o que é dispensável, feio e desprezível. Não gostamos deles por toda esta violência e criminalidade, mas rimo-nos com o ridículo, com a sua linguagem e as suas acções irreflectidas, porque nos sentimos moralmente superiores a toda esta miséria. E é através desta linguagem interessante que o autor nos transporta para uma família exemplificativa do extremo de uma realidade social muito real, infelizmente, no Portugal do século XX.

"Nunca saberás que um homem é tanto mais rico de humanidade quanto mais puder complicas as coisas simples."

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