terça-feira, 2 de setembro de 2014

The Sense of an Ending - Julian Barnes

"All this is looking ahead. What you fail to do is look ahead, and then imagine yourself looking back from that future point. Learning the new emotions that time brings. Discovering, for example, that as the witnesses to your life diminish, there is less corroboration, and therefore less certainty, as to what you are or have been."
'The Sense of an Ending', Julian Barnes

'The Sense of an Ending' é uma viagem pela história, o tempo e a memória, numa reflexão íntima de um homem na casa dos 60 anos que é confrontado com um passado que recorda de forma muito particular. Foi a minha primeira vez com Julian Barnes e não podia ter corrido melhor: caiu-me tudo a cada revelação, senti que cada palavra tinha o seu lugar na história e compreendi de forma exímia a capacidade do autor nos levar pelos caminhos misteriosos da memória.

Tony Webster e o seu grupo de amigos conheceram Adrian Finn no liceu, um rapaz claramente mais inteligente do que eles, com as suas teorias intelectuais e filosóficas e uma palavra pertinente para todas as situações. Já na faculdade, Tony namora com Veronica, que, depois de uma separação difícil, acaba a namorar com Adrian. Mas este desaparece de forma abrupta e inexplicável - tirando a sua própria vida - e Tony, 40 anos depois, conta-nos a história à luz da sua memória destes anos de juventude. Quando a mãe de Veronica morre e lhe deixa alguns itens em herança, Tony revive toda esta história - agora à luz da percepção de Veronica e do próprio Adrian -, descobrindo pormenores que não lembrava e um remorso que nunca esperara sentir.


"History is that certainty produced at the point where the imperfections of memory meet the inadequacies of documentation."

Não é fácil tentar explicar esta 'pequena grande' obra prima - pequena, de bolso, mas intensa e difícil de engolir como poucas. Tony explora o seu passado, procurando dar sentido à sua vida e às suas memórias, à sua história. Mas como, se tudo é tão subjectivo? Como, se a memória é tão imperfeita e os pensamentos, as motivações e as acções do ser humano tão complexos? É neste sentido (palavra irónica num contexto tão enigmático) que Tony nos relata a sua percepção daquele período da sua vida, na primeira parte, e na segunda a confronta com todas as revelações, as memórias reprimidas e as percepções dos outros de que, à distância de 40 anos, agora toma conhecimento.

Invade-o um sentimento de remorso, mas sobretudo de nostalgia. Gostava de mudar o passado, de agir de forma diferente, de remendar, de voltar às boas memórias - mas será que foram assim tão boas? Será que alguma vez poderá reconhecer o seu "eu" juvenil no "eu" de agora, ou que quer fazê-lo, sequer? 

E ao mesmo tempo o presente parece não ser já altura para remediar: Tony está sozinho, divorciado, reformado; conformado com a vida que levou, casado com uma mulher nada enigmática (em contraste com Veronica), praticamente a deixar a vida acontecer, sem grandes escolhas ou sobressaltos. Como ele próprio admite, uma vida "average", sem tomar as rédeas da vida - como, de certa forma, Adrian fez ao cometer suicídio (não é a morte uma escolha, face à inevitabilidade da vida?). É brilhante a forma como a morte de Adrian o leva a tantas questões, a tantas reflexões para as quais não há uma só resposta correcta. E como, tantos anos depois, esta memória ganha contornos tão diferentes e marcantes para o nosso narrador.

"We live in time, it bounds us and defines us, and time is supposed to measure history, isn't it? But if we can't understand time, can't grasp its mysteries of pace and progress, what chance do we have with history - even our own small, personal, largely undocumented piece of it?"

Ainda estou a tentar engolir e perceber o efeito que este livro teve em mim. Parece tudo tão simples, e é tudo tão complexificado pelo nosso contacto com a experiência. Nada existe sem ser interpretado - e uma interpretação, uma memória, de um acontecimento, pode ser tão variável, é sempre tão subjectiva... Como podemos viver num mundo em que nem podemos acreditar em nós mesmos? Este é o tipo de questões que 'The Sense of an Ending' levanta. E o mais engraçado disto tudo é que o livro de Frank Kermode que lhe empresta o nome já esteve nas minhas mãos, sob o meu olhar atento, numa tentativa de compreender o poder da ficção sobre a realidade - e como é bonita esta semelhança, este complemento académico, esta tentativa de compreender as complexidades incompreensíveis do ser humano...

Olhem, fiquei rendida ao charme deste senhor Barnes. Até posso não me lembrar do final apoteótico do livro daqui a um ano, mas nunca vou esquecer esta sensação de incompletude, de desassossego, de inquietude que ele deixou em mim. E guardo-a nesta reflexão sentida (e, possivelmente, sem grande sentido - o fim não tem sentido, como não têm o início nem o fim), também através destas belíssimas citações.

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