quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Príncipe das Marés - Pat Conroy

"O meu coração pertence aos pântanos. A criança que ainda existe em mim traz consigo as recordações daqueles dias em que, antes do amanhecer, tirava os caranguejos do rio Colleton, dias em que a vida do rio me moldou, ao mesmo tempo, criança e sacerdote das marés."
'O Príncipe das Marés', Pat Conroy

De volta às leituras de Verão, mas esta bastante mais consistente, pesada e trágica que as anteriores. Pat Conroy apresenta-nos 'O Príncipe das Marés', numa edição do ano em que nasci e que agora peguei para conhecer mais a fundo. As imagens mentais tocaram-me tanto ou mais que as oferecidas pelo filme, pela sua simplicidade, pela dor que transmitem. E foram seis dias intensos de leitura, nos quais mal consegui tirar os olhos das palavras estampadas no papel.

Os Wingos são uma família da Carolina do Sul, mais precisamente da ilha Melrose, onde Tom, Luke e Savannah foram criados. Casado e com três filhas, Tom conta agora à psiquiatra da irmã, de seu nome Susan Lowenstein, episódios da sua infância que podem ajudar a salvar Savannah dos seus demónios interiores, ao mesmo tempo que procura aliviar a dor de algumas memórias reprimidas - e ao mesmo tempo que, entre ele e Susan, vai nascendo uma cumplicidade que pode salvar ambos da estagnação e da neutralidade em que as suas vidas mergulharam.


"Não há condenação para a infância, apenas consequências e o fardo vivo da memória. Agora, falo dos dias vivos e cheios de sol do meu passado. Sou mais um contador de fábulas que um historiador, mas tentarei mostrar ao leitor o implacável terror da juventude. Traria a falsidade para o caminho da minha família se transformasse tudo, até mesmo a história, em romance. Não há romance nessa história; há apenas a história."

Tom conta-nos, na primeira pessoa, como o pai lhes batia, como a mãe optava por mentir e ocultar as memórias mais dolorosas, e como todos os Wingos pareciam meio doidos da cabeça - de tal maneira que a sua infância foi recheada de episódios estranhos, bons e maus, e de histórias tresloucadas. Os avós são um bom exemplo disso, com Amos a ser fanático por Deus e Tolitha uma personagem bastante cómica. Apesar das memórias engraçadas e da familiaridade entre irmãos (bastante diferentes entre si, diga-se), é normal que esta loucura familiar tenha interferido no crescimento dos três jovens e tenha afectado as suas personalidades adultas.

Quando Savannah tenta suicidar-se novamente, Tom vai a Nova Iorque para tentar ajudar a irmã. O seu casamento está num local difícil, a sua vida continua a ser mediana, expectável, e ele próprio tem demónios do passado que devia enfrentar - mas, enquanto a irmã os enfrenta e sofre com eles, ele continua a reprimi-los, a ignorá-los, a esquecer que existem. Não há emoções fortes, não há paixão, mas também não há dor. Esqueceu-se de chorar, de sentir.

A mentalidade sulista é uma poderosa aliada desta alienação. Os homens têm de ser fortes, têm de aguentar, têm de ser chefes de família. Mas Tom está desempregado, conformado, quase, com a sua situação. E admitir as coisas do coração é demasiado complicado. Ao conhecer Susan, aos poucos, tudo muda: ela é o completo oposto dele, das suas convicções, embora também ela reprima um casamento infeliz e um filho adolescente que não compreende. Ajudam-se mutuamente, encontram um no outro algo para defender e para se voltarem a apaixonar pela vida. O romance é secundário, quando assistimos a este encontro de um homem consigo mesmo - um homem que está em pedaços, desintegrado, à procura da sua alma.

"Ano após ano vou perdendo um pouco mais daquilo que fazia de mim uma criança especial. Não penso muito nisso, não ponho nada em causa, não ouso fazer nada. Até as minhas paixões de agora são gastas e patéticas. Já sonhei que viria a ser um grande homem. Agora, o melhor que espero ganhar é a luta para voltar a ser um homem medíocre."

É curioso como, à medida que ia lendo e conhecendo melhor esta personagem, me ia apercebendo das semelhanças com o livro de Julian Barnes que li anteriormente: o facto de ser um homem médio e nunca ter ambicionado ser mais que isso; a forma como olhava o passado, agora, à luz da sua experiência de vida, com olhos diferentes dos que tinha em criança.

É uma história longa, intensa, pesada. Tive de parar de ler várias vezes para recuperar o fôlego, reflectir sobre as memórias mais tristes e deixar que elas assentassem bem na minha cabeça. Mas não conseguia parar muito tempo, porque a complexidade das personagens, a sua riqueza, a forma tão bela como estão construídas e como as relações entre elas se vão alterando sempre na base do amor que sentem umas pelas outras, tudo isto me fascinava e obrigada a ir a correr descobrir o capítulo seguinte.

"- Amor... - Essa palavra parecia uma coisa sem gosto na boca dela. - Talvez tenhas razão. Voltamos sempre para o sítio de que gostamos, para a pessoa que está em casa à nossa espera. Noutro dia, pensava no tempo. Não no amor, mas no tempo. De certo modo, as duas coisas estão relacionadas, embora não saiba exactamente como. Estive casada durante quase o mesmo tempo com o teu avô e com o Tio John. Mas, quando olho o passado, tenho a impressão de que estive apenas uns dias com o Tio John. Isso por causa da felicidade que sentia. Parece que estou casada há centenas de anos com o vosso avô."

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