terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mudança - Vergílio Ferreira

"- Pode saber-se agora porque nos batemos?
Carlos revirou um olho cansado no escuro:
- É corajoso, amigo. Quer saber, quer tomar uma posição. É ter coragem. Gosto disso, caramba."
'Mudança', Vergílio Ferreira

Cada vez me apaixono mais por Vergílio Ferreira. Li ontem algo sobre a escrita ser o espelho da alma de um autor, ainda que esta possa estar fragmentada, como as diversas 'personalidades' de Fernando Pessoa. Vergílio Ferreira também tem esse hibridismo fascinante - e este 'Mudança' representa o maior espelho desta ambiguidade, entre o neorealismo da sua primeira fase literária e um pensamento algo existencialista que começa a adoptar nos seus 30 anos. Como marco desta mudança muito própria, é um romance maravilhoso!

O protagonista é Carlos Bruno, que vive rodeado pelo pai, o Tio Manuel, a mulher Berta, o sogro Cardoso, e ainda Gaviarra, o meio irmão Pedro e o engenheiro Raul. Enquanto o Tio e Gaviarra são dois inconscientes, que vivem a vida sem preocupações de maior, Pedro é o exacto oposto de Carlos - ou, pelo menos, da pessoa que Carlos se vai tornando, com um raciocínio negativista, só, criando problemas só porque isso significa pensar nas coisas. A mudança acontece no próprio Carlos (que às vezes é só Bruno, o que ajuda a confundir-nos e a confundi-lo!), como no autor desta personagem tão complexa.

"Nem compreendia o seu amor por Berta, se Berta não fosse medrosa. Amar era ferir, pôr à roda da mulher um areal de abandono, e depois proteger. Mas Berta não sentira no amor a escura vergonha que Carlos esperava cobrir de protecção."

A guerra e a crise alastram pelo mundo, o que, de certa forma, dá o mote para que Carlos comece a reflectir sobre as coisas, a querer discuti-las com outros que têm a coragem de pensar e questionar. É a componente mais neorealista do romance e, ao mesmo tempo, a que se transforma numa reflexão mais profunda. Mesmo o amor e a relação com Berta, inicialmente simples, baseada nos sentimentos, na igualdade, se transforma numa luta pelo domínio, numa dor constante, pela própria mudança operada em Carlos e que não o deixa dormir à noite, nem sentir-se bem com ela, nem sequer ser uma pessoa simples.

É um mix entre a história romanceada e as reflexões de Carlos, que por vezes são na primeira pessoa, outras é o próprio narrador (ausente, o que mostra também, ainda, um certo afastamento do autor da corrente mais existencialista que depois o vai caracterizar) que as enuncia, mas são quase sempre a transcrição pura dos pensamentos dele. E curiosa é a abordagem da solidão neste contexto: é procurada, mas também cansa. Quer pensar, quer lutar pelas coisas em que acredita... mas é melhor ficar a sós com os seus pensamentos, que tanto doem, ou é preferível discuti-los com os outros, mesmo quando estes não estão assim tão interessados em fazê-lo?

"- Faze da tua vida a história do mundo. organiza-a como se a dorte do universo estivesse dependente dela. Só vivemos uma vez. A nossa acção será definitiva, porque nunca mais a poderemos repetir. É um jogo de vida ou de morte, e por uma vez. Se pudéssemos repeti-la, poderíamos mudar-lhe o sentido. Assim, o que fizermos será o que fizermos. E para sempre."

Fui buscá-lo à Biblioteca (finalmente fiz o cartão das bibliotecas de Lisboa! Agora é que vai ser uma alegria) e, mesmo estando já com o João Tordo nas mãos, não consegui parar de seguir esta reflexão disfarçada de romance sobre o Homem, a vida, a filosofia e tudo mais. Os últimos capítulos fizeram-me lembrar 'Madame Bovary', pela insatisfação constante com a vida, embora aqui não se deva à exigência constante de amor, mas a ideia de novidade constante, de coragem (ou falta dela) e de busca de algo mais está bastante presente. E o final em aberto deixa-nos a pensar no que pode ter acontecido - faz parte da aura de mudança não sabermos concretamente o que Berta faz? Será que o próprio Vergílio Ferreira, entre uma ideia e outra, não sabia bem o que fazer às suas personagens?

Quero acreditar que sim, e que toda esta construção, apesar de bastante intimista e intuitiva (como parece ter sido e como o próprio autor a descreve no seu 'Diário Inédito'), também foi bastante premeditada. É isto que torna 'Mudança' um romance tão interessante e paradigmático na sua carreira!

"Não tinham razões concretas para zangas. Tinham pior - essa destra aptidão para criarem razões de tudo. Por isso, às vezes, também rejubilavam de amor, sem motivo. Uma força obscura e independente solidificava neles, vinha fora, com surpresa, à procura de uma justificação, violentava, imprevista, a disciplina de cada um. No fundo, decerto, amavam-se. Era talvez um amor irremediável, pelo hábito, pelo desgaste dos atritos primeiros - mas amor."

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