terça-feira, 2 de setembro de 2014

A Virgem Cigana - Santa Montefiore

"Recuei, em vez disso, àquele Verão no château, quando Coiote tinha vindo ter connosco, com o seu mistério e a sua magia, e transformara as nossas vidas. Tinha dado amor e sarado o passado. Ensinara-me a confiar, e eu entregara-lhe o meu coração, a minha alma, a minha fé; tudo o que tinha."
'A Virgem Cigana', Santa Montefiore

No Verão, leituras de Verão. É mesmo aquela época em que não nos importamos de ler os guilty pleasures todos, na praia ou a caminho do trabalho, só para desanuviar a mente. E este 'A Virgem Cigana' é um exemplo disso. Faz lembrar o 'Chocolate' de Joanne Harris - que, embora nunca tenha lido, associo sempre ao filme - e ao mesmo tempo marca-nos pelos pequenos pormenores que rodeiam a história - e que nada têm a ver nem com esse romance, nem com o quadro que lhe dá nome.

Mischa e a mãe vivem num château numa vila de Bordéus, praticamente isolados e até mal vistos pela comunidade por o rapaz ser filho de um soldado alemão morto na guerra. Quando Coiote, um americano charmoso e dócil, chega à vila e se apaixona pela mãe, Mischa ganha uma nova confiança: volta a ter voz, faz amizades e até vai à escola. O americano muda as suas vidas de tal forma que os leva para Júpiter, nos EUA, para começarem uma nova vida, até que os abandona para sempre e Mischa se perde numa vida que não é a sua.

O "pequeno chevalier" ressente-se muito com a partida de Coiote, tanto que, quando este regressa muitos anos depois para o ver (no início do livro), a reacção é de desdém, de dor, de recusa. A canção que entoava sempre anda às voltas da sua cabeça, mas tanta coisa mudou desde que ele desaparecera que é difícil voltar aos tempos felizes. E para o próprio Mischa conseguir reencontrar-se vai ter de voltar ao château francês e rever as pessoas que o fizeram feliz na infância. Vai ter de enfrentar o passado e desvendar todos os mistérios que o presente encerra.

Esta viagem mental do protagonista é interessante para nós, que acompanhámos toda a sua vivência na primeira pessoa, quais espectadores de tribuna VIP. Identificamo-nos com ele, gostamos dele, mesmo quando as suas acções se desviam e reflectem todo o seu lado lunar. Para nós é sempre aquele menino fascinado com a loja de brinquedos de Coiote, que com a mãe era um só, que nunca deixava nenhuma mulher entrar demasiado fundo no seu coração, quase como um mecanismo de defesa. Só Claudine consegui(r)a fazê-lo.

"Tenho andado pela terra com um grande buraco no coração. Tentei enchê-lo com todo o tipo de pessoas de diferentes formas e tamanhos, mas ninguém tinha a forma adequada. E sabes porquê? Porque foste tu que fizeste esse buraco e és a única pessoa que cabe nele."

Apesar do cliché e do mix entre uma Joanne Harris (até pela aura mágica que podemos ver, se lermos com atenção, em toda a paisagem da história) e uma Nicky Pellegrino (pelo romance dramático e pelas paisagens, também!), Santa Montefiore oferece-nos um belo romance estival que aquece bem o coração numa cansativa e aborrecida viagem de comboio. Esboçam-se alguns sorrisos e sentem-se algumas lágrimas ao canto do olho que vale a pena experimentar na leitura!

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