quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Medida do Mundo - Daniel Kehlmann

"Queria investigar a vida, compreender a estranha tenacidade com que ela abarcava o globo. Queria descobrir as suas artimanhas!"
'A Medida do Mundo', Daniel Kehlmann

Medir o mundo era o objectivo destes dois homens muito diferentes, tanto ou mais que os métodos que utilizavam para o fazer. 'A Medida do Mundo' acompanha as suas histórias, de pequenos génios a cientistas de renome, a velhos já ultrapassados no domínio da ciência, quando se tornam amigos apesar de todas as diferenças. Apesar de sobrevalorizado, não deixa de ser uma obra interessante e que nos oferece, de forma bem disposta, um pouco de história sobre estes homens pouco conhecidos do grande público.

Humboldt é o oposto do irmão mais velho, ligado às letras e às profissões ditas nobres. O mais novo prefere observar o mundo, viajar por todo o lado. Não dorme, não tem vida própria, apenas observa, escreve e descobre. Por seu lado, Gauss é descoberto com apenas 8 anos e desde essa tenra idade que desenvolve a sua genialidade matemática, escrevendo a obra da sua vida aos 20 anos. Prefere a comodidade da sua casa, da sua secretária, em lugar de se aventurar pelo mundo, mas ao mesmo tempo apaixona-se (por duas mulheres), casa e tem filhos, ainda que os considere burros, como a toda a gente. O livro começa com o encontro entre os dois alemães em Berlim, em 1828, revisitando depois as suas vidas.

"A árvore era gigantesca e contava vários séculos de idade. (...) Humboldt aproximou o relógio do ouvido e escutou. Da mesma forma que este, com o seu tiquetaque, continha o tempo dentro de si, aquela árvore repelia o tempo, um recife contra o qual se quebrava este fluxo. (...) Todas as coisas morriam, todas as pessoas, todos os animais, continuamente. Só uma não. Encostou a face à madeira, a seguir recuou e olhou em volta assustado, não fosse alguém ter visto."

O que os une é bastante interessante: para além do forte vínculo à Razão, à cientificidade do mundo, um total isolamento da realidade e distanciamento da actualidade, que sem dúvida fazem parte da loucura inerente ao ser-se génio. É por isso, talvez, que até se dão bem no final das suas histórias de vida: também porque, de certa forma, nenhum deles acabou quando queria ter acabado, no auge das suas vidas, mas antes numa época em que, ultrapassados, já não tinham nem forças, nem cabeça, nem permissões (até pela fama que ganharam com as suas conquistas) para continuar em busca das coisas impossíveis do mundo. Até porque quem atinge o seu auge muito cedo na vida dificilmente consegue manter-se motivado para continuar.

As histórias são curiosas, descritas com grande humor, imaginação e conhecimento de causa. É admirável o carácter científico de algumas afirmações e explicações de Kehlmann, que nem por um segundo hesita em tentar mostrar ao cidadão comum que qualquer cidadão comum pode compreender a ciência (nem sempre bem sucedidas, diga-se!, mesmo tendo em conta a aura especial que os cientistas retratados se auto-oferecem). Fá-lo com contornos originais, introduzindo plot points (à falta de me lembrar de um termo melhor no domínio da literatura) e ligações a questões do senso comum que compreendemos mais facilmente.

"As pessoas criam e descobrem, adquirem bens, encontram pessoas que amam mais do que a si mesmas, geram filhos, talvez inteligentes, talvez também idiotas, vêem morrer as pessoas que amam, envelhecem e ficam patetas, adoecem e vão para debaixo da terra. E pensam que decidiram tudo. Só a Matemática nos mostra que seguimos sempre pelo caminho mais fácil."

Tudo isto torna mais simples e interessante a leitura, que por vezes parece ou demasiado confusa ou demasiado simplista. Conhecemos as suas histórias, até os contextos em que são vividas, mas nem sempre conseguimos estabelecer uma relação de sentido e compreender as intenções do autor - nem mesmo se estas eram a nossa própria interpretação da leitura. 

O que vemos são dois génios que, como o tempo, vão passando rapidamente pela vida e pela vivacidade - e no fim não passam de alemães ainda mais amargurados, apesar de vidas repletas de conquistas. Estas, as conquistas, são o que de melhor tiramos do romance - as histórias, o conhecimento destes dois homens e tudo o que fazem (inclusivamente serem cobaias das suas próprias experiências!) para chegar até às descobertas.

"Mas quando Humboldt ia a atravessar os primeiros subúrbios de Berlim e imaginou Gauss nesse momento a observar com o seu telescópio corpos celestes cujas órbitas conseguia determinar em simples fórmulas, já não era capaz de dizer qual deles andara a correr mundo e qual permanecera sempre em casa."

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