quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Bom Inverno - João Tordo

Era, pensei então, o balão mais triste de sempre, e Metzger, provavelmente, o primeiro homem na História que, depois de morto, subia em direcção ao céu em vez de descer às entranhas da terra, fazendo do ar o seu sepulcro e das nuvens pálidas do Lácio os seus anjos coléricos do infortúnio.
'O Bom Inverno', João Tordo

Quando os livros são ricos e tocantes, todas as palavras parecem poucas para os descrever; todas as interpretações parecem cruéis para a sua perfeição. 'O Bom Inverno', de João Tordo, é um desses livros. Com ele subimos no balão e não queremos voltar a pôr os pés no chão. Sentimo-nos num inverno agreste e, ao mesmo tempo, num verão caloroso. Tememos a página seguinte mas não conseguimos parar de ler. Chegamos ao fim e sentimos uma tranquilidade desassossegada, de que só as grandes obras são capazes.

(...) Começa com uma morte, tem todos os ingredientes de um policial: um crime, vários possíveis culpados e um homem que procura vingança, louco, sádico e inflexível. À superfície, com o mistério e o thriller à flor da pele, pode ser visto como tal. Mas descascá-lo é descobrir as suas camadas mais profundas, do relato íntimo da primeira pessoa do singular à maravilhosa construção de cada uma das personagens, que rapidamente associamos aos nomes, a rostos imaginados e a personalidades vincadas. Lê-lo é viver ávida e nervosamente o passar da ação, a desconfiança e a busca do culpado, e ao mesmo tempo ver a evolução destas personagens, que vão sendo obrigadas a enfrentar os seus medos e as suas fraquezas mais profundas.

Crítica no Espalha-Factos.

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