domingo, 22 de junho de 2014

A Espuma dos Dias - Boris Vian

"Abraça-me. Tenho frio. É desta neve..."
'A Espuma dos Dias', Boris Vian

Já conhecia a história deste 'A Espuma dos Dias', pelo filme de Michel Gondry lançado no ano passado. E o que aconteceu foi, a cada palavra, também pela cinematografia de cada descrição, recordar cada frame, cada cenário, cada imagem do filme: as cores, os momentos mais marcantes. Boris Vian leva-nos para um mundo completamente novo - e a verdade é que me fez compreender de forma diferente o filme, apesar de bastante fiel à sua imaginação louca.

Colin é um bon vivant, rico, que não trabalha porque não precisa e porque não gosta, que vive entre os cozinhados de Nicolas, as músicas de Duke Ellington, as festas de aniversário abastadas e os passeios em ringues de patinagem. Quando conhece Cloé, o seu mundo ganha um novo sentido: quer amá-la, casar com ela, torná-la feliz. Mas Cloé adoece logo após o casamento e Colin perde o seu dinheiro, Chick esbanja tudo a comprar livros de Partre em vez de casar com Alise, Nicolas envelhece e o mundo como antes conheciam parece ir morrendo aos poucos também.

A felicidade, a inocência e a facilidade das coisas na primeira parte do romance contrasta fortemente com uma segunda parte decadente, trágica, que vai destruindo tudo à sua volta. Imagino as cores vivas a serem substituídas pelo preto e branco, como no filme. A linha entre estes dois momentos é ténue, como se o êxtase do casamento, o apogeu da sua felicidade, obrigasse a que tudo o que se seguisse fosse pior, mais sofrimento, um castigo total por toda aquela felicidade.

O mundo de Vian é um mix entre a realidade e a ficção científica, uma mistura que gosto sempre de experienciar nas leituras. O aparato é gigante, as descrições são mágicas e a imaginação é para lá de fértil. Sentimo-nos constantemente num quadro de Dalí e temos de abraçar toda aquela loucura para podermos apreciá-la. Quem não gostaria de ter um piano-cocktail em casa?

Todo este aparato, esta magia, se perde quando a casa se estraga, o dinheiro se gasta e as suas vidas se alteram completamente. Jean-Sol Partre, que no romance muda o nome, mas é a mesma personalidade literária e filosófica, espelha a crítica ao existencialismo da época. Chick é levado à falência e à loucura pelo amor aos seus livros, renegando até o amor por Alise. 

"- Quem me dera estar apaixonado - disse Colin. - Quem te dera estares apaixonado. Quem lhe dera idem (estar apaixonado). Quem nos, quem vos, estarmos, estardes. Quem lhes dera, também a eles, ficar apaixonados..."

É a grande diferença entre ele e Colin, que coloca sempre o seu amor por Cloé à frente de tudo. Por ela arranja mil trabalhos, sujeita-se a mil situações, arruina a sua própria vida para lhe comprar flores e destruir aquele nenúfar malvado que lhe cresce no peito. Como diz Vian, o amor é das poucas coisas que a vida tem de belo, "o resto é feio".

"Não são as pessoas que mudam, são as coisas", diz também. As pessoas também mudam. Envelhecem, sujeitam-se à mudança das coisas. A fugacidade da juventude e da riqueza, a fragilidade perante a vida, quando tudo parece estar sob o nosso controlo, são a mensagem trágica que 'A Espuma dos Dias' nos oferece, num registo semelhante a alguns amores clássicos e trágicos que o povo recorda com afecto. Sofremos com Colin, com a ratinha que também não consegue ver a desgraça a acontecer. Deixamo-nos emocionar por este amor e por todas as coisas que fogem ao nosso controlo - como a própria guerra, quando o autor escrevia este romance.

Se em termos de estilo, de forma, Vian poderia passar despercebido, o que escreve - e sobre o que escreve - toca-nos de forma muito profunda. Cada descrição é um poço de imagens. Cada acção é um oásis de imaginação. Cada momento absurdo e surreal é parte de uma grande crítica, mensagem ou ideia sua que quer transmitir. Nada é ao acaso. E se o filme já me tinha transmitido esse sentimento (crítica no Espalha-Factos), o livro fê-lo - como os livros fazem sempre - de forma ainda mais próxima do coração. E nenhum arranca-corações poderá tirar-nos isso!

"Foi porque lhes disseram: 'O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que conta acima de tudo, e só os que trabalham têm direito a tudo.' Sucede é que as coisas estão feitas para os obrigar a trabalhar durante o tempo todo e dessa forma não ganham nada com isso."

P.S. - a 5€ nos alfarrabistas da Feira do Livro de Lisboa. Uma das compras da temporada :)

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