domingo, 20 de abril de 2014

Aparição - Vergílio Ferreira

"Que era a vida e o seu sonho e as suas conveniências? Ser feliz, ser feliz. Esgotar no instante toda a ferragem e velharia de quantos problemas e interrogações e amarguras."
'Aparição', Vergílio Ferreira

O ritmo alucinante dos pensamentos, a criatividade das descrições e o uso maravilhosamente excessivo de recursos estilísticos na transmissão de emoções tornaram-se, para mim, marcos gritantes da escrita de Vergílio Ferreira, que neste 'Aparição' se exalta - "ao mais alto nível". Não é um livro fácil de engolir, os momentos de 'boca aberta' são frequentes e o cariz existencialista exige um determinado estado de espírito para nos deixarmos envolver, mas é sem dúvida uma das grandes obras e leitura obrigatória da língua portuguesa.

Alfredo é a personagem principal, que narra em constantes analepses a história da sua passagem por Évora, quando se tornou professor no Liceu da cidade. Aí conhece a família Moura, com Sofia a sobressair pela sua 'loucura' e rebeldia, Ana pela sua inteligência e Cristina pela forma mágica como toca piano. Quase nos esquecemos do nome Alfredo, quando este nos leva pelos seus pensamentos e sentimentos, pelo seu entusiasmo ao ver que o aluno Carolino partilha o seu questionamento permanente em relação à vida, até mesmo no momento em que vê o seu grupo de amigos, a sua relativa felicidade e o mundo à sua volta a ruir.


É existencialista, sem o ser exageradamente. A história é entrecortada por pensamentos do género "quem sou eu?", "o corpo e a alma?", "Deus"... É metafísico, mas não deixa de haver uma causalidade e uma história que acompanhamos. Notamos a sua necessidade de ser mas que uma aparição, do que o que é visível - o corpo, a forma, o que passa para fora. Quer ser um homem, no que isso implica: ter um propósito, ser consciente, ter liberdade e agir; questionar-se, pensar sobre si mesmo. A primeira pessoa faz todo o sentido nesta reflexão "sentimental" que o autor leva a cabo, num registo quase autobiográfico.

É reflexivo, no sentido de olhar para o passado e pensar no futuro de forma a fazer pensar e mudar as coisas; mas não é saudosista. Alfredo escreve estas palavras com um certo afastamento temporal, sim - escreve-as muitos anos mais tarde. Um grande afastamento que o é também em relação aos sentimentos - depressa esquece Sofia, depressa a quer novamente; depressa ultrapassa as acusações de ser o culpado da desgraça de Sofia e Carolino. E ao mesmo tempo é tão próximo, temporal, espacial e reflexivamente, deste tempo passado, deste episódio - a forma brusca com que Alfredo pensa na vida e na morte, a dor, a realidade que também nós sentimos quase na pele. Um existencialismo um bocadinho especial, no bom sentido.

"Um longo abraço, quente de ternura, sufoca-nos a todos na procura de um refúgio, de uma alegria perdida quando? onde? o sonho não é de nunca. O que é vivo, o que é real é aquela ceia vulgar, com uma sopa, vários pratos, doces e uma necessidade de preencher os espaços de silêncio com o que há de único na hora e não sabemos e nos foge."

No contexto ditatorial em que Vergílio Ferreira escreve, esta ânsia de questionar, tomar consciência e agir é óbvia, bem como a sua angústia quase "pessoana" de não estar nunca em paz, querer sempre mais, não aceitar o que se vê. Se Saramago o tivesse antecedido, como antecedeu nas minhas leituras, diria até que este 'Aparição' é um 'Ensaio sobre a Cegueira' menos mascarado, mais directo, com o mesmo objectivo de fazer abrir os olhos e ver - não o que está fora, mas o que está dentro de cada um de nós.

A forma estilizada como escreve e a irrelevância dos factos perante tamanha reflexão tornam 'Aparição' um romance pesado e exigente de atenção, paciência e abertura de espírito. Por motivos académicos (quem diria?) estou a descobrir Vergílio Ferreira, e nesta que foi a primeira obra sua que terminei (o 'Para Sempre' está a olhar para mim na estante, a pedir para lhe dar mais uma oportunidade...) conquistou-me de tal forma que acho que vou aceitar o desafio e torná-lo objecto da minha dissertação de mestrado. Ui.

"Um acto de presença não se define, não cabe nas palavras. SOU. Jacto de mim próprio, intimidade comigo, eu, pessoa que é em mim, absurda necessidade de ser, intensidade absoluta no limiar da minha aparição em mim, esta coisa, esta coisa que sou eu, esta individualidade que não quero apenas ver de fora como num espelho mas sentir, ver no seu próprio estar sendo, este irredutível e necessário e absurdo clarão que sou eu iluminando e iluminando-me, esta categórica afirmação de ser que não consegue imaginar o ter nascido, porque o que eu sou não tem limites no puro acto de estar sendo, esta evidência que me aterra quando um raio da sua luz emerge da espessura que me cobre."

"E de ver assim presente a uma inocência o mundo do prodígio e da grandeza de ver que uma criança era bastante para erguer o mundo nas mãos e que alguma coisa, no entanto, a transcendia, abusava dela como de uma vítima, angustiava-me até às lágrimas."

"Ou talvez que por isso mesmo ela tivesse aprendido a linguagem do silêncio, essa em que as palavras são a névoa do alheamento, da meditação do nada, e em que as palavras em voz alta são da pessoa de fora como as de um intruso."

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