terça-feira, 1 de abril de 2014

A Desumanização - Valter Hugo Mãe


"Se alguma das minhas garrafas vier devolvida, atira outra vez. Ninguém precisa de saber que já não estou aqui. Se os mortos forem heróis, vou realizar os teus sonhos. Vou ficar a olhar por ti, mesmo que não me consigas ver. Eu acho que os mortos sabem as coisas todas da escola. Não achas. Não tenhas medo. Não é preciso termos tanto medo, só um bocadinho."
'A Desumanização', de Valter Hugo Mãe

A primeira leitura de um autor é a nossa primeira impressão sobre a sua escrita, a sua capacidade de contar histórias e de nos cativar com elas. 'A Desumanização' foi a minha primeira experiência com Valter Hugo Mãe, o homem que não gosta de usar letras maiúsculas e não obedece a regras de pontuação, mas que põe toda a sua alma no que escreve. Mais do que um romance, é uma ode. À vida para lá da dor, da tristeza, da fuga, da morte. E à escrita. 

 Halla vive algures nos fiordes islandeses, num sítio anónimo, indiferente, onde as pessoas nem sempre são o que parecem e no qual tudo parece morrer aos poucos. Na primeira pessoa, Halla revela-nos o que fica depois da morte da irmã gémea, Sigridur: a dor, a solidão e o desencantamento. Seguimos os seus pensamentos e sentimentos, identificando-nos aos poucos, sendo progressivamente assombrados pela voz de uma menina de apenas doze anos.

Crítica no Espalha-Factos


"Se alguma das minhas garrafas vier devolvida, atira outra vez. Ninguém precisa de saber que já não estou aqui. Se os mortos forem heróis, vou realizar os teus sonhos. Vou ficar a olhar por ti, mesmo que não me consigas ver. Eu acho que os mortos sabem as coisas todas da escola. Não achas. Não tenhas medo. Não é preciso termos tanto medo, só um bocadinho." 

"Quis pedir-lhe desculpa por ser tão nova. Por ser tão ridícula. Por ter nenhuma autoridade sobre os meus sentimentos, sobre o meu corpo e a esperança tão difícil de algum dia ser adulta. Eu queria muito pedir desculpa por não servir para nada. para criança ou para mulher." 

"A Sigridur, quando muito pequena, confundia o ontem, o hoje e o amanhã. Dizia: amanhã foi muito bonito. O meu pai achava que era uma forma de ter visões. A Sigridur só o dizia quando se referia a coisas positivas, alegrias e contentamentos que recolhia. Era uma forma de prever que o dia seguinte seria tão bom quanto o anterior. Como se fosse uma capacidade de sonhar."

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