quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Mrs Dalloway - Virginia Woolf


"Take me with you, Clarissa thought impulsively, as if he were starting directly upon some great voyage; and then, next moment, it was as if the five acts of a Play that had been very exciting and moving were now over and she had lived a lifetime in them and had run away, had lived with Peter, and it was now over."
'Mrs Dalloway', Virginia Woolf

Não há muitos livros que nos fazem querer agarrá-lo nas mãos e nunca parar de ler.  Este Mrs Dalloway é, felizmente, um deles. Com personagens interessantes e uma história muito interior, Virginia Woolf conquista corações por onde Clarissa Dalloway se dá a conhecer - e faz-nos apaixonar pela vida, pelas pequenas coisas, pelos pensamentos a que nem sempre damos importância, mas que vistos com alguma distância podem na verdade ser os que mais nos dizem. "There she was".

A narrativa é como se fosse um monólogo interior, ou vários, melhor dizendo, por parte das diversas personagens e de um narrador omnisciente, que sabe sempre o que elas pensam. Decorre em discursos indirectos e indirectos livres misturados, tornando-se por vezes difícil distinguir quem diz ou pensa o quê. A acção em si passa-se ao longo de um dia em Junho, na cosmopolita e burguesa Londres, dia no qual Mrs Dalloway dará uma festa em sua casa. É também o dia em que regressa à sua vida um amor do passado, Peter Walsh, e o dia em que Septimus Warren Smith, um "herói" da guerra traumatizado, se questiona acerca da vida e das pessoas.
"He would argue with her about killing themselves; and explain how wicked people were; how he could see them making up lies as they passed in the street. He knew all their thoughts, he said; he knew everything. He knew the meaning of the world, he said."

É curioso que esta acção se desenrola muito discretamente, por vezes até entre parênteses, sendo totalmente secundária na obra. O que importa verdadeiramente é conhecer o interior das personagens - "he thought, she thought". O passado está muito presente, ou regressa de alguma forma, tanto em Clarissa como em Septimus. Peter e Sally, a sua juventude, Bourton e os bons velhos tempos não lhe saem da cabeça. Septimus vive o drama de perder o amigo na guerra vezes sem conta ao longo do mesmo dia.

E, com o passado, o medo. Da opressão, em ambos. Da vida controlada por outros, da própria vida, sobretudo em Septimus. Clarissa, por exemplo, sente por um lado que tem de ter uma postura burguesa, dada a sua condição social, o seu casamento; por outro, gosta de dar festas para se divertir, para os outros se divertirem. Sentimos que ninguém a compreende verdadeiramente; Peter Walsh continua a tentar.

"Here he was walking across London to say to Clarissa in so many words that he loved her. Which one never does say, he thought. Partly one’s lazy; partly one’s shy."

A verdade é que o romance deles nunca poderia ter resultado; ambos o sabem, mas o regresso ao passado traz tudo novamente à superfície, mesmo que não se apercebam nem queiram admitir. Até pode não ser amor, é preocupação, conhecimento mútuo. O mesmo acontece com Sally: por muito diferente que esteja, a recordação da sua amizade é ainda muito forte. Nunca foi tão forte com o marido, Richard. Mesmo com uma vida juntos, continua a haver coisas por dizer. São felizes, mas é como se não conseguissem sê-lo mais - pelas suas personalidades, pelo passado que não partilham. Clarissa é, afinal, Mrs Richard Dalloway, mais do que ela própria - e isso espelha bem o quanto está "engolida" pela sociedade londrina da época, que Woolf critica.


É sem dúvida um romance feminista, por se focar sobretudo nas diversas mulheres independentes que compõem a história e por dar um valor especial à nossa Clarissa, claro, que é o centro de todo o romance. Mas a história contempla também uma forte crítica aos tratamentos de doenças mentais, com uma incompreensão absoluta (e maioritariamente cultural) das pessoas - o que a própria autora certamente sentiu, na sua doença bipolar. Para além disso, a homossexualidade, pouco evidente e não tratada como tal, na sua relação com Sally Seton, e ainda a preocupação com questões existenciais, que as personagens manifestam nos seus pensamentos.

"So that to know her, or any one, one must seek out the people who completed them; even the places. Odd affinities she had with people she had never spoken to, some woman in the street, some man behind a counter – even trees, or barns."

Curioso também que Clarissa e Septimus nunca se conhecem, mas há entre eles uma estranha similaridade, uma busca de felicidade. Por muito que se goste de Clarissa e que se tenha pena de Rezia, não se pode culpar Septimus pelas suas acções. Nunca fez nada que não sentisse ser o correcto e, apesar de socialmente questionável e incompreendido... bom, não o somos todos um bocadinho? Às vezes não se trata disso. Clarissa compreende tudo isso muito bem, incompreensivelmente. É bonito saber isso.


Foi uma aventura lê-lo em inglês, um desafio ainda maior por se tratar de um clássico, de uma obra prima. Saboreia-se à medida que se vai lendo e apetece seguir o fluxo de consciência das personagens, que parece não ter pausa, como em 'Mrs Dalloway' não existem capítulos. Quando cheguei ao fim tinha os cantos das páginas quase todos dobrados, porque todas as páginas tinham alguma palavra, frase ou expressão, que quero reler e recordar quando o voltar a folhear. É tão bom quando isso acontece. Não queremos que acabe; não queremos esquecer. 3 euros muito bem gastos neste clássico Penguin. Directo para os favoritos.

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