sábado, 18 de agosto de 2012

Madame Bovary - Gustave Flaubert

"Ah! Bem vê que eu tinha razão para não voltar - disse ele com voz melancólica -, pois esse nome, o nome que enche a minha alma e que deixei escapar, vejo que mo proíbe! Madame Bovary!... Toda a gente pode chamar-lhe assim!... Mas não é o seu nome; é o nome de outro!"
'Madame Bovary', Gustave Flaubert

Há quem lhe chame uma obra prima, e com razão. 'Madame Bovary' não é apenas uma história de adultério, é todo um romance acerca de uma mulher infeliz e eternamente insatisfeita, que à custa de tentar conquistar algo mais na vida acaba por ir perdendo as poucas coisas que tem. A história do julgamento de Flaubert e a não aceitação da obra à época ainda a tornam mais fascinante, pelo conhecimento dos hábitos e da sociedade que nos proporciona.

O romance realista conta a história de Charles Bovary, que se apaixona por Emma e a desposa. Quando se mudam para Yonville, uma pequena aldeia em França, Emma começa a aperceber-se da vulgaridade da vida provinciana e procura novas sensações, junto de dois homens que conhece e por quem se apaixona: Léon e Rodolphe. Gasta mais do que pode, endivida-se para ascender socialmente... No entanto, nunca consegue atingir a verdadeira felicidade que leu nos livros e com a qual sonhava e o ciclo vicioso leva a um trágico fim, 'à ópera' - o único possível!

"Repetia a si mesma: 'Tenho um amante! Um amante!', e deliciava-se ante esta ideia, como se uma nova puberdade lhe tivesse sobrevindo. Era pois certo que ia possuir enfim as alegrias do amor, essa febre da felicidade de que ela já desesperava."

Sempre junto ao sonho e à esperança, encontra-se o desfazer do sonho, a insatisfação, a tristeza. Emma Bovary é uma personagem extraordinária, tão complexa na sua ingenuidade e na aspiração a tanta coisa incompreensível. Ninguém é tão ambicioso e insatisfeito, ninguém age de forma tão pouco coerente consigo mesmo como Emma. Por vezes pensamos até estar perante pessoas diferentes, dada a mudança de atitude de que é alvo. Por muito que pareça feliz, o momento seguinte traz a desgraça. E ao não se conseguir satisfazer a si mesma, obviamente também não satisfaz os que a rodeiam, pelo que depressa esta felicidade aparente se desvanece. 

Daí esta história ser muito mais do que um retrato de adultério, de traição - não só de Charles, mas dos valores da sociedade, da moral da época (e das mulheres!). É a história de Emma, a Madame Bovary - cujo título não se podia aplicar melhor. Afinal de contas, se ela fosse apenas Emma, talvez a controvérsia não fosse tão grande. No entanto, ela é a Madame Bovary, e por isso é adúltera, é culpada; e é prisioneira e infeliz também. Não é desculpá-la, mas dificilmente não nos sentiremos atraídos para esta personagem maravilhosa, e ainda mais dificilmente não nos deixaremos sensibilizar por ela, apesar de tudo. Todos temos um bocadinho dela dentro de nós, ela é apenas o expoente máximo, um exagero do que podemos sentir, e que devemos evitar.

"Que importava? Não era feliz, nunca o fora. Donde vinha pois aquela insuficiência da vida, aquela podridão instantânea das coisas a que se apoiava?..."

A genialidade de Emma é um espelho da genialidade de Flaubert, nas exímias descrições das personagens, do ambiente, bem como nas analogias maravilhosas que estabelece. Trata-se também de um retrato da sociedade, através da pequena aldeia de Yonville, do farmacêutico Homais e das suas discussões filosóficas com o cura, por exemplo, sobre religião. Homais junta-se ao leque de personagens inesquecíveis que 'Madame Bovary' encerra, com Charles a personificar todo o provincianismo, Rodolphe a mostrar a liberdade da riqueza e Léon a não ser mais do que um simples peão na história, quando em outras circunstâncias fosse talvez um dos elementos de uma bonita história de amor.

É uma obra feita de personagens, de filosofia, de moralidade e caracterização social; mas o que fica é mesmo Emma, na sua simplicidade afinal tão complicada, mais para si do que para nós. Foi ela que levou Flaubert a um julgamento por obscenidade, quando a mentalidade do século XIX não conseguiu compreender a verdadeira essência do livro. Felizmente, hoje, compreendêmo-lo. E amamo-lo por isso!

"'O dever! O dever!' Pelo amor de Deus! O dever é sentir o que é grande, amar o que é belo, e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe."

Conselho: ver o filme de 1949, realizado por Vincente Minelli, com Elizabeth Taylor no papel de Emma.

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