segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dr. Strangelove ou como aprendi a não me aborrecer e a amar a bomba - Peter George

Mais um livro que vale bem mais do que paguei por ele - 50 cêntimos na feira da ladra. 'Dr. Strangelove ou como aprendi a não me aborrecer e a amar a bomba' é daqueles obras macabras de tão reais, que nos fazem reflectir acerca do mundo que nos rodeia - neste caso, sobretudo, no que diz respeito ao progresso. E, curiosidade das curiosidades, é um livro baseado num filme (de Kubrick), que por sua vez se baseou num livro do mesmo autor, Red Alert. Teias engraçadas.

Não vi o filme, mas a fluidez do livro não parece muito diferente. Peter George ofereceu-o a Kubrick, por ter gostado tanto da sua adaptação (é o que diz a Wikipedia!). 'Dr. Strangelove' (para resumir o título) passa-se durante a Guerra Fria, quando um General americano dá a ordem para atacar alvos soviéticos sem autorização do Presidente. A acção desenrola-se tanto na Sala de Guerra do Pentágono, como na Base Aérea de Burpelson, como ainda no Gafaria, um dos bombardeiros que segue a sua missão.

O progresso tem as suas vantagens e durante o período da "guerra sem guerra" este foi maior do que nunca, sobretudo a nível militar. Hiroshima foi apenas o início de algo que poderá ainda ser muito pior, tendo em conta o potencial destas grandes potências (passo a redundância). 'Potencial' é a palavra chave, dado que, historicamente, sempre se viveu no terror de uma guerra a sério, evitando-se a utilização destes mesmos avanços. Na obra de Peter George, essa utilização é efectivada através de uma ordem dada por alguém que é considerado "maluco" por o ter feito, sem explicação nem plano.

O que um homem só pode provocar no mundo - aqui reside o verdadeiro perigo e a ameaça que representa o progresso, que o autor pretende demonstrar na obra. Um simples 'erro' humano pode mudar o curso da história da humanidade. Particularmente quando o Juízo Final existe e nada nem ninguém o pode controlar. É tudo uma questão de confiança, ou de falta dela, já que a própria 'guerra' se baseia nisso. Mas como se pode confiar num ser que erra?

"- Vocês não podiam esperar que destruíssemos as nossas armas, sem ter a mais pequena ideia do que faziam no interior do vosso país!
- E vocês, Senhor Presidente, não podiam esperar que permitíssemos que nos espiassem antes de destruírem as vossas armas..."

Há muitas questões levantadas por 'Dr. Strangelove', por exemplo porque é que o diálogo não podia terminar uma guerra, tendo em conta que os líderes dos dois países são capazes de comunicar e de agir em conjunto, protegendo alguns interesses semelhantes (afinal de contas, somos todos humanos). Mas isso não chega, porque a desconfiança acaba por reinar sempre, a rivalidade vem ao de cima e mesmo no final de tudo, quando não sabemos como sobreviver, continuamos preocupados com os nossos interesses e vigilantes perante os outros. É um círculo!

O Dr. Strangelove que dá nome ao filme e ao livro demora a surgir e só no final compreendemos a sua importância para toda a obra. No entanto, há personagens igualmente fascinantes que se encerram nesta teia de humor negro. É o caso de King Kong, que pode ser visto como um herói, por um lado, e por outro ser o seu orgulho o grande motivo de tragédia para o mundo. Ou até o Presidente dos EUA, sempre sem saber bem o que fazer. A comédia é o ponto alto da obra, como se fosse o que resta de tudo isto: rir do ridículo que é a guerra, a racionalidade do homem ou o seu orgulho.

O mérito é todo de Kubrick. Depois deste livro, o filme também não vai faltar. Faz-nos bem reflectir acerca destas coisas e compreender que a história, apesar de passada, não é estática - e que os dias que correm não são assim tão diferentes de há 60 anos. É a realidade exagerada, satirizada. Pelo menos é a minha interpretação - os experts em Kubrick poderão dizer que não é nada disto! Interessante, cativante e surpreendente - são as minhas palavras de ordem sobre este estranho amor que se cria.

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