terça-feira, 10 de julho de 2012

Terna é a Noite - F. Scott Fitzgerald

"Tu costumavas criar e agora dá a impressão de que só destróis"
'Terna é a Noite', F. Scott Fitzgerald

Este 'Tender is the Night' foi o meu primeiro contacto com Fitzgerald, de quem sempre tivera curiosidade de ler alguma coisa. Só posso dizer que foi uma boa primeira impressão, com uma história nada simples, nada leve, que em muito se identifica com a própria vida do autor. É por tudo isso um romance pesado, invariavelmente descritivo e explosivo - mas com uma sensibilidade cativante, verdadeiramente vindo do coração.

No centro uma doença: a esquizofrenia. Nasce numa clínica suíça uma paixão entre médico e paciente, desde logo condenada a uma eterna relação nesses termos - um homem a cuidar da sua esposa. Apesar de todo o amor que os unia e da família (biológica e de amizades) que construíram, a determinada altura, Dick e Nicole começam a compreender tudo o que a vida não lhes deu, e o desejo de mudança faz-se sentir de muitas maneiras diferentes.

Dir-se-ia, no início do romance, que a história superficial de um homem casado que se deixa seduzir por uma jovem actriz seria a trama da obra em questão. Ou mais: que Rosemary Hoyt seria a nossa heroína, salvando Dick de um casamento que já dera tudo o que tinha a dar. Como tudo se torna diferente quando, chegados à segunda parte, compreendemos quem são o homem e a mulher por detrás da máscara da alta sociedade, também aqui criticados por Fitgerald, seja com Mary North ou o casal Mckisco. Como estes se tornam o centro da história e controlam todo o seu rumo.

Não é leviana a forma como trata a doença de Nicole - que foi também a doença da sua esposa. Nos momentos mais terríveis, mostra-a louca, à frente dos filhos, deixando muitas vezes Dick sem saber como agir - num eterno dilema entre a sua função de médico e o seu papel enquanto marido, como a própria irmã de Nicole sempre quis que ele fosse, ambas as coisas. O motivo da doença de Nicole é também abordado com uma dimensão real e pesada que o autor consegue transmitir muito bem na obra.

"A minha delicadeza é um artifício do coração"

Deixando de se saber definir perante ela, a nossa personagem principal deixa também de se conseguir olhar ao espelho e saber quem é. 'Terna é a Noite' é, em poucas palavras, a decadência de um homem que achava que tinha tudo mas que, afinal de contas, não se sente feliz com o que tem - é um eterno insatisfeito, quer sempre mais da vida do que, possivelmente, esta lhe pode oferecer. Por isso deixa-se levar por breves romances e paixonetas, pelos caminhos do álcool, caindo no insucesso pessoal e profissional. Não nos é nada fácil acompanhar esta sua queda e é com tristeza que o fazemos; mas, ao mesmo tempo, com um carácter de inevitabilidade que Fitzgerald deixa no ar, como se as coisas tomassem o seu rumo certo, por mais doloroso que isso seja,

Muito descritivo, como referi, mas também apaixonante. Não cativa desde a primeira página, talvez a partir da centésima. Contudo, à medida que nos vamos embrenhando na história, vamo-nos apercebendo de que não conseguiremos sair tão facilmente. "Uma confissão de fé", como o descreveu o próprio autor. É um relato emotivo de uma sociedade e um retrato interessante de uma Europa no pós-guerra, a partir da pequena - e no entanto tão grande - história dos Divers. A ler, sem dúvida, para absorver e apreciar, com todas as suas imperfeições humanas.

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