domingo, 1 de julho de 2012

O Mistério da Estrada de Sintra - Eça e Ortigão

“Desde que amei, a minha vida foi um desequilíbrio perpétuo. Não era voluntariamente que eu cedia à atracção, era com uma repugnância altiva. Mil coisas choravam dentro de mim, sofria sobretudo o orgulho. Era impossível fazer com ele uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.”
'O Mistério da Estrada de Sintra', Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão iludiram Lisboa com a história de um crime denunciado nas páginas de um jornal, no que é considerado o primeiro policial português. O génio dos autores mostra-se na escrita, na profundidade das personagens criadas e na crónica de costumes já habitual da geração de 70, aqui bem evidente. Uma excelente obra, uma intriga intemporal, sobre os amores e desamores da sociedade.

O suspense funciona na perfeição neste 'O Mistério da Estrada de Sintra', desde o momento em que os dois amigos são raptados e levados para uma casa desconhecida, até à verdadeira descoberta de quem matou o homem encontrado na casa de Sintra, como e porquê. Revela-se toda uma nova história através da publicação dos relatos no jornal, tomada por todos como verdadeira, talvez numa primeira (mas forte) crítica à sociedade da época, apática e sem valores, precisando de algo em que acreditar. Agitá-la era o seu principal objectivo.

As personagens de Eça e Ortigão são de uma profundidade envolvente, verdadeiramente densas, modeladas, muito ricas. Uma Cármen que, por amar, perde todas as suas forças; uma condessa que se deixa engolir pela ilusão, primeiro, e depois pelo arrependimento; o seu primo que procura ajudar todos e salvar as honras de todos, e acaba por se perder numa teia de histórias que não são suas. Até o doutor tem um papel fundamental na narrativa, com o qual o leitor se identifica, sabendo apenas o que este relata. Todas anónimas e fictícias, e ao mesmo tempo personagens tão reais.



O desenrolar da história que leva à morte daquele homem faz-se particularmente em três narrativas ou cartas: a do mascarado alto, a de A.M.C. e a ‘dela’, que confessa tudo já perto do final da obra. Todas desvendam personagens e momentos cruciais, destacando-se o romance de Rytmel e da condessa, que de resto condiciona toda a intriga, bem como a admiração e respeito de todos os mascarados por ‘ela’, que os leva a proteger a sua honra.

É curioso observar as relações de adultério, na que é mais uma forte crítica à alta sociedade do século XIX, tanto na personagem da condessa como na de Cármen. No entanto, é exactamente através destas duas personagens que se eleva a alma e o coração da mulher: apesar das suas atitudes incorrectas e desrespeitosas, ainda por mais dada a sua condição social, a mulher é aqui tomada como sensível, arrependida, emotiva, genuína… É ela que, no fim de contas, mais se dá e sofre por amor – que morre, inclusive, e mata. O sofrer por amor é mostrado como uma história que se repete e que absolve, por assim dizer, o próprio crime, pois ninguém quer ver julgada aquela mulher que matou apenas por amar demais.

A confissão é, de longe, a carta mais intensa que a imaginação dos autores produziu. Dotada de uma emoção realista, com a qual o leitor se compadece, a narrativa consegue manter uma decência bastante lógica, dadas as circunstâncias em que é escrita. E é a derradeira carta de revelação dos acontecimentos. Apesar de uma certa banalidade da história, de amores, relações humanas e sociais que se perdem, a sua originalidade está, a meu ver, nestes pormenores de escrita e criação interior das personagens, que Eça e Ortigão tão bem sabem fazer.

'O Mistério da Estrada de Sintra' é um daqueles livros dos quais não vamos querer saber o final logo no início da leitura. É uma obra para saborear, descobrir e deixar levar – e sofrer, também, com o drama e o romance que se misturam com a história policial. É mais uma grande obra de dois grandes autores de final de século, sublimemente escrita e imaginada, a acrescentar à forma inédita como foi apresentada ao público.

publicado em Espalha-Factos (com supressões)

2 comentários:

  1. Olá Raquel, tomei a liberdade de utilizar este texto numa compilação de opiniões de leitores sobre este livro. Pode encontrá-la no meu blog: www.folhasdepapel.wordpress.com
    Boas leituras!

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    1. Olá! Muito obrigada, é uma honra para mim. Boas leituras! :)

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