sábado, 5 de maio de 2012

Coração, Cabeça e Estômago – Camilo

Um livro de 1907 é o que tenho nas mãos. Valeu os cinco euros que dei por ele na Feira da Ladra. 'Coração, Cabeça e Estômago' é a história de um homem, Silvestre da Silva, contada em três partes, de acordo com o órgão que a regeu. Camilo Castelo Branco escreve como se um amigo de Silvestre, recolhendo os seus manuscritos, os publicasse postumamente, na que se torna uma bonita mixórdia de crítica social, memória de um homem e poesia.

Silvestre não quer que o romanceiem nem dramatizem. Conta as coisas em escrito como mas disse a mim conversando, e eu agora as dou em estampa ao universo”. E é tal e qual.

O período sentimental é retratado na primeira parte, inicialmente em sete mulheres que fizeram parte da vida de Silvestre, mas nenhuma delas tão marcante como a Marcolina que conhecemos no final deste “coração”, o período mais dramático da sua vida. A cabeça corresponde à fase intelectual de Silvestre, mais racional, como se deixasse de ter, inclusive, coração:

Consultei a minha cabeça, e a cabeça me disse que requestasse a viúva. Senti que o coração punha embargos; mas a veleidade foi de momentos. Caiu-lhe em cima a cabeça com todo o peso da razão; e o pobrezinho, que já me não servia para mais que centro das funções sanguíneas, gemeu, contorceu-se e amuou”.



Já na última fase, o estômago leva este homem a agir segundo os seus impulsos animais, segundo a sua fome, digamos assim. Tem um pouco de coração e um pouco de cabeça, mas numa perspectiva mais crua – como se acabasse por ser nem emocional nem racional. O coração tem as histórias mais bonitas e pessoais de Silvestre, mas também no estômago encontramos uma forma pessoal e particular de ver a vida.

À medida que vamos conhecendo o protagonista, que no fundo conta a história na primeira pessoa, vamos também observando a realidade social da época, a futilidade das pessoas e o papel da mulher na própria sociedade. Do Porto a Lisboa, Silvestre vai retratando de forma crítica, muitas vezes satírica, o que vai vivendo e assistindo.

A poesia ocupa um lugar privilegiado nesta mistura de relatos, por vezes sem sentido, que são conjugados na obra. Silvestre é uma tentativa de poeta, como refere o amigo editor, um narrador sempre atento que procura fazer com que os seus escritos façam mais sentido para o leitor. O poema final acaba por ser o melhor, por reunir numa só estrofe tudo o que vale a pena guardar da sua vida – e por mostrar bem a sua divisão em três partes:

Cabeça e coração senti sem vida, 
No estômago busquei uma alma nova 
E encontrá-la pensei... Crença perdida! 
Mulher aos pés o coração me sova; 
Foge ao mundo a razão espavorida; 
E por muito comer eu desço à cova!”.

A forma é, sem dúvida, mais importante do que o conteúdo, daí que as citações sejam tão interessantes de colocar aqui. A escrita de Camilo é embelezada sem o ser, sem intenção aparente, e sem ela acredito que o conteúdo se tornaria algo aborrecido. Mesmo com a escrita ‘arcaica’ de 1907, em que tive de me esforçar para compreender algumas palavras, considero esta escrita muito mais bela do que a própria história de Silvestre – que é, no entanto, um protagonista e tanto.

A conjugação de coração, cabeça e estômago é maravilhosa e é ela que torna o livro indispensável a qualquer pessoa que procure saber um pouco mais de si própria.

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