domingo, 1 de abril de 2012

Persuasão - Jane Austen

“Com certeza que, se existir afecto constante de ambos os lados, os nossos corações terão de se compreender em breve. Não somos um rapaz e uma rapariga, para sermos capciosamente susceptíveis, iludidos por qualquer inadvertência momentânea e brincarmos caprichosamente com a nossa felicidade.
'Persuasão', Jane Austen

É o último romance acabado de Jane Austen, que não viveu para o ver publicado, nem sequer para o intitular. 'Persuasão' é uma obra pouco complexa, tendo como pano de fundo uma crítica à sociedade do século XIX, com uma heroína sensata e uma bonita história de amor, num jogo de persuasões e ilusões que nos leva de uma ponta à outra do romance mais depressa do que inicialmente esperávamos. E, no meio de tudo isto, sobressai Anne Elliott. É impossível não gostar dela.

Sob o olhar atento de Anne, Austen caracteriza e caricatura, como é nela habitual, algumas das personagens do romance. É o caso das próprias irmãs, fúteis, mesquinhas, mais preocupadas com a condição social do que com o intelecto – sobretudo a mais velha, Elizabeth. O mesmo acontece com o pai, um baronete falido para quem importam apenas a aparência, a opinião alheia e as boas companhias.

É no seio da própria família que Anne parece mais incompreendida, e compreendida por nós, leitores. Anne é terna, inteligente, com um coração amável e uma mente sonhadora, mas também bastante perspicaz e terra a terra. Aos 27 anos, permanece por casar e mostra já um amadurecimento próprio da idade, que lhe dá uma perspetiva ponderada da realidade. Ao longo de todo o romance, colocamo-nos no lugar de Anne, tal como Jane a criou à sua imagem, e é muito fácil apreciarmos o seu bom senso, a sua personalidade tão própria.


É interessante observar como a persuasão que dá título à obra está presente em toda a história, seja na forma como cada uma daquelas personagens aparenta ser algo, ainda que não o seja, ou em cada gesto ou tentativa de levar alguém a fazer ou deixar de fazer algo. O maior exemplo é a persuasão exercida sobre Anne por parte de Lady Russel.

O que considero curioso neste romance entre Anne e Frederick é que apenas tomamos conhecimento dele através de relatos, pois não assistimos verdadeiramente ao desabrochar do seu amor. Este também se destaca no romance, por ser o protótipo do self made man, que atingiu uma condição social superior através de mérito próprio. É bem-educado, gracioso, e a heroína de Persuasão gosta dele exatamente por ser seu semelhante. Tal como em outros romances de Jane Austen, temos uma protagonista que representa o papel que a mulher deve assumir na sociedade, bem como um herói – se assim o podemos chamar – que nunca perdeu os valores da juventude menos abastada.

Os últimos capítulos de 'Persuasão' são, sem dúvida, a sua melhor parte. Destacam-se o diálogo entre Anne e Harville sobre a fidelidade dos sentimentos das mulheres e dos homens, num belo momento filosófico, e a carta de Frederick para Anne, verdadeiramente apaixonante: “metade de mim é angústia, outra metade é esperança”. Deixamo-nos envolver pelas palavras mais até do que pelas acções.

'Persuasão' é um livro inquietante, apesar de toda a simplicidade aparente do enredo. Estamos sempre à espera do romance, dos reencontros entre eles, de um ou outro desenvolvimento relativamente à história. E a maravilhosa escrita de Austen agarra-nos de tal forma às personagens que custa parar de ler, não iniciar um novo capítulo e descobrir algo novo. A previsibilidade e o lugar-comum inerentes acabam por ser contornados com estes aspectos.

Uma obra sobre segundas oportunidades, sobre o perdão e o amor verdadeiro: um olhar amadurecido sobre estas questões e uma reflexão singular acerca da realidade social da Inglaterra do século XIX. Jane Austen é uma leitora incontornável da sua época e neste 'Persuasão' consegue, uma vez mais, ficcioná-la, transmitindo-a de geração em geração. Por mais que se trate de mil oitocentos e tal, trata-se também do nosso século XXI, no qual as coisas e as pessoas não são assim tão diferentes. É o génio de Jane.

publicado em Espalha-Factos (com supressões)

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